Narrativas em Disputa: Bolsonaristas alegam perseguição após Quaest

A pesquisa Genial/Quaest divulgada hoje trouxe o pior cenário do ano para o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ): 40% das intenções de voto para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra 28% no primeiro turno, uma distância de 12 pontos que é a maior das seis rodadas do instituto em 2026.

O número reacendeu a hipótese de vitória de Lula ainda no primeiro turno e chegou às redes poucos dias depois da leitura, por Flávio, de uma carta de seu pai, Jair Bolsonaro, que lhe rendeu a suspensão das visitas ao ex-presidente por 90 dias, diante de uma decisão de Alexandre de Moraes.

De acordo com a Palver, que realiza um monitoramento em tempo real em mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram, os dois assuntos concentraram a conversa política da semana. Entre 12 e 15 de julho, as menções à carta de Jair responderam por quase 14% de todo o material que cita Flávio, com pico no domingo (um dia após a leitura da carta) e na segunda-feira (13), enquanto as menções à pesquisa da Quaest estão sendo debatidas nos grupos desde a divulgação, na manhã de hoje.

Nas mensagens que tomaram posição sobre os levantamentos, o campo que comemora a vantagem de Lula ficou perto de 60%, contra pouco mais de 40% que reagem contra as pesquisas ou tentam sustentar a candidatura de Flávio.

Do lado bolsonarista, a reação à Quaest se organizou em três linhas. A mais compartilhada não contesta o número, mas o contorna apontando para outras pesquisas, com destaque para levantamentos como os de Futura/Apex e Paraná Pesquisas, que apontam empate técnico no segundo turno. A segunda ataca o mensageiro, com a tese de que "a Quaest é um banco que financia o governo Lula", enquadrando o resultado como encomenda. A terceira, minoritária, admite a desvantagem, mas aposta no avanço de Flávio entre jovens e evangélicos e que com o início das campanhas o jogo ficará mais equilibrado.

No campo governista, o tom foi de comemoração. Mensagens como "o Lula tá vindo aí" e a lembrança de que a aprovação do presidente voltou a superar numericamente a desaprovação pela primeira vez desde o fim de 2024 transformaram a pesquisa em prova de virada. Aqui, a hipótese de primeiro turno funciona menos como previsão e mais como peça de mobilização, um chamado para "confirmar nas urnas" a vantagem de Lula.

Antes da divulgação da pesquisa, o assunto que estava mais em evidência era a carta de Jair Bolsonaro reforçando a pré-candidatura de Flávio, lida e divulgada nas redes sociais. O fato fez com que houvesse uma reação do Judiciário. Esse movimento fez com que uma parcela do bolsonarismo reativasse a narrativa de perseguição e censura à direita. Inicialmente, a carta foi uma medida interessante para Flávio, uma vez que mudou o foco da discussão das brigas com Michelle Bolsonaro e também da operação da PF envolvendo Valdemar Costa Neto, um dos principais articuladores da campanha.

Do outro lado, os grupos mais à esquerda apontaram as questões jurídicas envolvendo a carta, tanto do ponto de vista eleitoral (como uma possível campanha antecipada), como também o que apontaram como sendo uma violação, por Jair Bolsonaro, das condicionalidades da prisão domiciliar.

Mais corrosivo para Flávio, porém, foi o enquadramento que ecoou até no campo da direita, argumentando que a carta "expõe a fragilidade" da candidatura, reforçado pela crítica de aliados como Ronaldo Caiado.

O balanço da semana é que as duas principais campanhas, tanto a de Lula quanto a de Flávio, vivem momentos opostos. Enquanto Lula vê suas possibilidades de vitória em primeiro turno aumentarem com a divulgação da pesquisa Genial/Quaest, a campanha de Flávio enfrenta uma série de desafios, saindo de uma crise para outra e expondo uma dependência de Jair Bolsonaro. O cenário pode mudar ainda hoje, a depender de qual será o resultado da decisão dos Estados Unidos de colocar tarifas sobre produtos brasileiros, assunto em que Flávio se envolveu pessoalmente, podendo resgatar a crise do "Tariflávio" ou servir para fortalecer a campanha do senador.

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