Tenho horror a tudo o que pensa Michelle, mas me causa ainda mais asco o espetáculo de misoginia e cafajestagem de que ela foi vítima

Michelle é uma mulher feminista.

Michelle é uma mulher identitária.

Michelle é uma mulher caroneira da política.

Michelle foi, no governo passado, apenas a mulher de Bolsonaro.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Tudo o que vai acima é mentira.

Há apenas uma verdade inconveniente para o núcleo duro da extrema direita, cujos guardiões são Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro. E tal verdade é esta: MICHELLE É MULHER. E isso lhes parece insuportável.

A mulher de Bolsonaro — e, no PL, deve-se escrever “esposa”, cujo masculino é “esposo”… — deixou a presidência do PL Mulher e também havia decidido se desligar do partido, mas consta que foi contida, nesse particular, pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e pela governadora do DF, Celina Leão (PP).

Estaria decidida a não mais disputar o Senado. Tivesse realmente abandonado a legenda, fim da linha para tal pretensão, ao menos para 2026. Demovida, resta ainda a possibilidade. “Você acha, Reinaldo, que ela realmente está se retirando para a vida puramente doméstica?” Não tenho “offs” a respeito nem “conversas de interlocutores” — esses truques aborrecidos da imprensa… Tenho, isto sim, uma leitura: acho que não.

O capital político dela é grande o bastante para terminar no Irajá, como a peça de teatro brasileira que fez blague com o sumiço de Greta Garbo. No lugar dela, eu me guardaria para embates futuros. Mas não estou nesse lugar nem compartilho aqueles valores.

Tenho, na verdade, horror a quase tudo o que li a respeito do pensamento e das escolhas de Michelle. Mas cultivo ainda mais horror à misoginia e a truculência.  Desafiando o “Conto da Aia” — “The Handmaid’s Tale”, o livro de Margaret Atwood que gerou a série na Netflix —, a mulher de Jair não se conformou com seu papel. Bem, eu tendo a me solidarizar com inconformados quando vítimas de uma arbitrariedade.

E Flávio disse o quê? Nada. Ele é uma gaveta vazia, a ser preenchida por ideias de terceiros. Os arcanos ideológicos estão com o irmão Zero Três — o visionário — e com Paulo Figueiredo, o “pensador” metido a sucessor de Olavo de Carvalho, mas com uns 30 mil livros a menos. Sobraram a paixão pela grosseria e pelo baixo calão. As palavras fazem sentido — até as do “nepovéio” da ditadura. E é claro que ele ousou fazer digressões sobre os pentelhos de Michelle e Damares.

Ninguém merece respeito. Ninguém merece consideração. Ninguém merece misericórdia. A menos que se digam absolutamente fieis à doutrina “Eduardo-figueirediana”.

BOLSONARO COMO IDIOTA DISFUNCIONAL Mais: o neto do ditador — e essa jaca poderia ter caído longe da jaqueira, mas não foi desta vez — deixou claro que Bolsonaro-pai é um idiota disfuncional, incapaz de manter a decisão ou a palavra, influenciável até por uma… mulher. Lembram-se quando os comparei, a ele e a Eduardo, com a dupla de ratos “Pinky e o Cérebro”?

Ora, ora… Olavão era um fanático pelo comunista italiano Antonio Gramsci e por isso tinha a ambição de emulá-lo, mas com teses de extrema direita. Vai ver a dupla de ratos é marxista atávica, mas com alguma derivação teratológica. Ligar o alarme de ironia aqui…

Marx e Engels chamaram de “socialismo utópico” o que veio antes de sua teoria e de “científico” o que veio depois — tal nomenclatura é mais clara em Engels, como sabem os espertos, embora a tese já estivesse em forma larvar no “Manifesto Comunista”.

Eduardo e Figueiredo julgam dar o salto do “bolsonarismo utópico” para o “bolsonarismo científico”. E isso supõe eliminar as mulheres do jogo político porque, vocês sabem, “o feminismo é demoníaco”. Quando elas ficam bravas, começam a “arrancar os pentelhos”, assevera Figueiredo. O que explica esse medo pânico das mulheres?

Que coisa! Aristófanes tratou do assunto, a seu modo, em “Lisístrata”, no ano 411 antes de Cristo. De lá a esta data, essa gente horrível não aprendeu nada. Vai com eles? É pegar ou largar.

Nota – a cada vez que uma jornalista estiver usando Figueiredo como fonte, é bom que se lembre: ele acha que a dita-cuja nem deveria exercer tal função porque incapaz de entender o que ele diz, já que não pode alcançar o mundo da racionalidade. Se for um homem a ouvi-lo, vira, assim, “broderagem” contra viragos pentelhudas.