Ishe e Dembe saltavam de galho em galho na densa copa da floresta de uma reserva em Uganda quando surpreenderam os pesquisadores que os observavam. Os chimpanzés-orientais se aproximaram de um macaco-de-cauda-vermelha que estava por perto, não com agressividade, mas com carícias. Leia mais (08/20/2026 - 06h00)

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Taylor Mitchell Brown

Ishe e Dembe saltavam de galho em galho na densa copa da floresta de uma reserva em Uganda quando surpreenderam os pesquisadores que os observavam. Os chimpanzés-orientais se aproximaram de um macaco-de-cauda-vermelha que estava por perto, não com agressividade, mas com carícias.

Uma interação rara como essa pode representar um estágio inicial do comportamento de criar animais de estimação entre nossos primos primatas, segundo um estudo publicado no fim do mês passado na revista Primates.

O trabalho sugere que os Homo sapiens não são os únicos a cuidar de outras espécies e que as raízes do desejo de ter um animal de companhia podem remontar a um passado distante de nossa história primata.

Os animais de estimação há muito representam um enigma evolutivo para os pesquisadores. Precisamos alimentá-los, dar-lhes abrigo, além de cortar as unhas deles, limpar seus dentes e fazer carinho neles. Uma relação assim poderia ser considerada um investimento de baixo retorno.

"Esbanjar recursos com membros de outras espécies nos quais não temos nenhum interesse evolutivo parece não fazer sentido do ponto de vista da evolução", afirmou o psicólogo e especialista em animais Hal Herzog, da Western Carolina University (EUA), que não participou da pesquisa. Ainda assim, muitas culturas ao redor do mundo têm animais de estimação e nutrem grande carinho por eles.

Pesquisas anteriores mostram que os motivos pelos quais temos animais de estimação são tão variados quanto os próprios animais que criamos, entre os quais companhia, conexão social, busca por novidades e, também, por status. O ator Nicolas Cage já teve uma cobra de duas cabeças, e Pablo Escobar mantinha seu próprio zoológico, com hipopótamos e girafas.

Estudos com gêmeos sugerem que parte do desejo de ter animais como companhia é genética. As origens exatas dessa inclinação, porém, permanecem envoltas em mistério.

"Há teorias de que o hábito de criar animais de estimação começou ou porque eles eram úteis em tarefas como caça e proteção, ou porque os humanos têm uma tendência natural a cuidar de outros seres vivos e a criar vínculos com eles", disse a ecóloga comportamental Zoë Goldsborough, do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, que não participou da pesquisa.

As evidências arqueológicas mais antigas da criação de animais de estimação vêm de uma sepultura de 14 mil anos na Alemanha, onde um homem e uma mulher foram enterrados ao lado de um cão. Mas essa relação provavelmente surgiu muito antes. Em algum momento do processo de domesticação dos animais, nossa ligação com outras espécies deixou de ser algo essencialmente utilitário e passou a assumir características mais modernas.

"Infelizmente, não fazemos ideia de há quanto tempo os seres humanos vêm trazendo animais para suas vidas como bichos de estimação", afirmou Herzog. "Sem uma máquina do tempo, talvez nunca saibamos."

A ideia de investigar nossos parentes em busca de comportamentos ligados à criação de animais de estimação surgiu quando o antropólogo e primatólogo Cyril Grueter, da Universidade de Oxford, visitava o Zoológico de Xangai, ainda durante o mestrado.

Ele viu que uma fêmea de gibão havia conseguido capturar um pequeno camundongo, segurando-o delicadamente na mão e fazendo carinho nele. "Ela continuou cuidando muito bem dele, e o camundongo parecia estar confortável na palma da mão dela", disse Grueter, principal autor do novo estudo.

Interações como essas entre espécies podem conter pistas sobre por que enchemos nossas casas de pets, pensou Grueter. Porém, esse não é o tipo de dado que os pesquisadores costumam publicar em revistas científicas com revisão por pares. "Se você vir um gorila acariciando um gálago, alguém poderá tirar uma foto e publicá-la nas redes sociais, mas isso não vira um artigo científico."