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Mais da metade dos europeus, 56%, acha que o futuro da União Europeia está "em perigo". Outros 68% descrevem uma "deterioração geral" do bloco. Os números são de uma pesquisa abrangente, "Future Nostalgia: Europe's Unfinished Song" (algo como "Nostalgia do futuro: a canção inacabada da Europa"), publicada nesta quarta-feira (9) pelo Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR) em parceria com a Fundação Cultural Europeia (FCE). Dificilmente Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, poderia receber um retrato menos favorável às vésperas do seu discurso anual sobre o Estado da União, que faz em Estrasburgo na próxima quarta (16).
Os autores dividiram os entrevistados em quatro grupos. Só 19% se declaram positivos em relação à União. Os negativos, sensíveis a discursos sobre o declínio europeu e mais atentos a temas como inflação, imigração e guerra, chegam a 39%, patamar próximo aos índices de intenção de voto em partidos de extrema direita como a Reunião Nacional francesa e a AfD (Alternativa para a Alemanha), que teve forte votação no pleito regional da Saxônia-Anhalt no último domingo (6). Há ainda 12% de desconectados e 31% de indecisos, que acreditam no projeto europeu, mas esperam provas de que ele funciona.
O apego à União, paradoxalmente, segue alto: 74% em média, segundo o Eurobarômetro, a pesquisa de opinião que a própria União Europeia realiza periodicamente. O problema, resume o pesquisador sênior do ECFR, Pawel Zerka, autor do estudo, é um "déficit de imaginação" sobre como sair da estagnação atual.
Não faltam sintomas para alimentar esse pessimismo. Alguns exemplos dos últimos dias:
Espaço - França e Alemanha, anfitriãs da Cúpula Espacial Internacional em Paris nesta quarta e quinta (9 e 10), estão divididas por rivalidades industriais, enquanto o continente segue atrás da SpaceX, de Elon Musk.
Inteligência artificial - a francesa Mistral levantou o maior aporte já registrado por uma startup de IA na Europa, €3 bilhões liderados pela sul-coreana Samsung, mas isso não calou as críticas de que a empresa teria abandonado a corrida pelos modelos mais avançados.
Educação — o Pisa registrou queda histórica no desempenho de estudantes franceses e alemães. Pior desempenho básico significa menor produtividade e renda ao longo da vida: o instituto alemão ifo estima perda de 3% a 4% na renda de longo prazo na Alemanha, porque trabalhadores com habilidades mais fracas tendem a ocupar postos de menor valor agregado.
Islândia — um referendo rejeitou, por 52,8% dos votos, a retomada das negociações de adesão ao bloco.
Sérvia - país candidato à União, teve ministros do governo do presidente Aleksandar Vucic no funeral do general sérvio-bósnio Ratko Mladic, condenado por genocídio. Bruxelas classificou o gesto como incompatível com seus valores.
Mais de quatro anos de guerra depois, a Europa segue sem conseguir se firmar como interlocutora direta numa eventual negociação com o presidente russo, Vladimir Putin. E paga o preço da dependência energética que tenta reduzir: o cronograma legal de abandono do gás russo, em vigor desde janeiro, mantém os custos de energia elevados no continente.
Títulos públicos - os rendimentos da dívida soberana de França e Alemanha subiram nas últimas semanas: o OAT francês de dez anos bateu, no início de setembro, o maior nível desde a crise financeira de 2008, e o spread sobre os Bunds alemães chegou a cerca de 85 pontos-base. A pressão soma inflação em alta na zona do euro, expectativa de novas altas de juros do BCE e, no caso francês, a incerteza em torno do Orçamento de 2027.
A reação de Bruxelas
Bruxelas tenta reagir. Institutos como o think tank belga EPIC (European Policy Innovation Council) acompanham, mês a mês, a implementação das 383 recomendações do relatório de Mario Draghi, ex-primeiro-ministro italiano, sobre competitividade, apresentado em 9 de setembro de 2024 — data que, por coincidência, completa exatamente dois anos nesta quarta. Cada instituto usa sua própria metodologia, o que explica a variação dos números: o EPIC calcula 15,7% de implementação plena; o Institut Montaigne, com sede em Paris, chega a cerca de 30%. Foi nesse esforço de acelerar a curva que a Comissão Europeia apresentou, ainda nesta quarta, dois novos textos: o Public Procurement Act e o European Innovation Act, que tentam simplificar as compras públicas e destravar financiamento para startups inovadoras.
"A boa notícia é que a maioria dos europeus ainda acredita na ideia de uma Europa unida. A má notícia é que duvidam de sua capacidade de cumprir o que promete", resumiu André Wilkens, diretor da FCE, ao Le Figaro. É como se a maioria dos europeus ainda soubesse qual música quer ouvir, só não conseguisse imaginar como a banda vai chegar até lá.




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