A população brasileira está envelhecendo e isso reflete nos eleitores. Segundo o Tribunal ...

A população brasileira está envelhecendo e isso reflete nos eleitores. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são aproximadamente 37,5 milhões de eleitores com 60 anos ou mais, o que representa 23,6% do total. Em 2022, eram 32,9 milhões, o que correspondia a 21%. Nesse mesmo período, o número de eleitores de até 18 anos caiu 14,5%.

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O movimento acompanha o avanço da longevidade no País. Segundo o IBGE, a população brasileira com 60 anos ou mais passou de 10,8% em 2010 para 15,8% em 2022. Os impactos deste processo são percebidos em diferentes setores da sociedade, da economia e do mercado de trabalho à política, ao consumo e às políticas públicas.

Para especialistas, é pouco provável o sucesso de uma campanha política sem considerar as demandas e necessidades dos cidadãos desta faixa etária no Brasil. De acordo com Cléa Klouri, especialista em longevidade e cofundadora do data8, um hub de pesquisas sobre longevidade, as eleições podem representar uma oportunidade para lançar um olhar mais atento à questão do envelhecimento da população.

“Nenhuma campanha eleitoral pode ignorar essa população mais velha. Claro que saúde preventiva, cuidado e previdência são muito importantes. Mas estamos vendo uma população 60+ que é muito ativa, que trabalha, empreende, consome e sustenta as famílias”, comenta.

A mudança do perfil etário do eleitorado também amplia o conjunto de demandas que podem chegar às urnas. “Os projetos eleitorais também precisam falar de mercado de trabalho, inclusão digital, de mobilidade, de moradia e, principalmente, do combate ao etarismo”, conclui.

O envelhecimento populacional, no entanto, não é um processo uniforme por todo o País. As características desta população variam de acordo com fatores como renda, gênero, cor e local de moradia, o que também influencia suas necessidades e o acesso a serviços públicos.

“É fundamental considerar aspectos como gênero, renda e local de moradia ao pensar em políticas para idosos. Existem muitas ‘velhices’ no Brasil. Por exemplo, a expectativa de vida de uma pessoa que mora numa região nobre em São Paulo é maior do que a de uma moradora da periferia ou da favela. Há diferenças de expectativas de vida de quase 15 anos”, explica.

As diferenças regionais e socioeconômicas também podem influenciar a forma como essa população participa da vida pública e acessa serviços. Por isso, além de considerar o crescimento do eleitorado 60+, a discussão sobre políticas para essa parcela da população precisa levar em conta fatores como renda, escolaridade, gênero, raça, condições de saúde, acesso à tecnologia e local de moradia. 

A presença dos eleitores mais velhos no cadastro eleitoral também aumentou. Segundo dados do TSE, o número de idosos com o título de eleitor ativo cresceu aproximadamente 74% desde 2010. O dado, no entanto, representa o crescimento do eleitorado com título ativo e não necessariamente significa que esta população esteja comparecendo, de fato, às urnas.

Na avaliação de Cléa, o crescimento desse grupo faz com que sua participação possa ter peso relevante nos resultados eleitorais. A especialista afirma que a campanha “Voto 70+”, criada para estimular a participação desse eleitorado, surgiu a partir da percepção de que parte dos idosos não se sente representada pelos candidatos e acaba deixando de votar. 

“A participação dessa faixa etária é fundamental para uma sociedade mais inclusiva, justa e participativa. A geração 70+ pode fazer a diferença para o resultado dessa eleição”, observa.

O envelhecimento do eleitorado, porém, é apenas uma das manifestações de uma transformação demográfica que alcança diferentes áreas da sociedade. Entre os impactos mais notáveis do avanço da longevidade no País, está o envelhecimento da força de trabalho, à medida que as pessoas tendem a permanecer por mais tempo vinculadas a empregos formais, ao empreendedorismo ou à geração de renda.

O fenômeno também traz desafios relacionados à acessibilidade, especialmente nas grandes cidades, conforme aponta Marcos Eduardo Ferreira, especialista em longevidade e mercado secundário.

“Há um desafio brutal de adaptação das cidades e de seu entorno, dado que a relação de um habitante maduro com a comunidade e com a cidade é um pouco diferente da de um jovem”, explica. 

“Do ponto de vista da saúde pública, há um desafio enorme de adaptação do SUS, à medida que se inverte a lógica de quem vai demandar os serviços. De maneira geral, portanto, o fenômeno terá impactos no setor privado, no setor público, nas relações de consumo, na força de trabalho e na preparação das cidades para esse processo de envelhecimento da população brasileira”, conclui.

Outro impacto importante está no setor econômico. A chamada economia prateada, formada pelo consumo da população madura, já movimenta cerca de R$ 1,8 trilhão no Brasil, segundo pesquisa da data8. De acordo com o mesmo levantamento, a projeção é de que esse valor chegue a R$ 3,8 trilhões em 2044, de modo a representar 35% do consumo privado dos domicílios brasileiros.

Para o especialista, setores como saúde, turismo, bem-estar e serviços financeiros devem estar entre os mais beneficiados com a mudança do perfil demográfico. Ao mesmo tempo, o envelhecimento da população exigirá a formação de uma mão de obra capaz de atender às novas demandas e a adaptação de empresas e serviços a um público que tende a permanecer economicamente ativo por mais tempo.

“Estamos vivendo uma verdadeira revolução da longevidade. A população madura já é protagonista de alguns setores econômicos. Se olharmos, por exemplo, para o mercado financeiro, são grandes detentores de investimentos e consumidores de previdência privada, saúde e seguros”, afirma.