Principais candidatos ao Senado por SP são entrevistados pelo Terra e apresentam propostas e prioridades para um eventual mandato
Após deixar o Ministério do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede) quer ocupar uma das cadeiras do Senado por São Paulo. Em entrevista ao Terra, ela aponta haver "contaminação política" no Supremo Tribunal Federal (STF) e considera que a discussão a respeito de impeachment de ministros deve contar com mecanismos de autocorreção, que devem ser aplicados "sem dois pesos e duas medidas". Marina também rebate críticas da oposição, que a chamam de forasteira por disputar um cargo no estado paulista, e evita comentar sobre críticas passadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Detalhista e com posicionamentos firmes sobre temas sociais e ambientais, Marina defende a necessidade de reformas no Judiciário e comenta sobre temas polêmicos no Congresso Nacional: como aborto, castração química e redução da maioridade penal. A candidata ainda falou sobre suas propostas para São Paulo nas áreas de meio ambiente, segurança climática, economia e desenvolvimento sustentável.
Confira os principais pontos da entrevista:
Em meio à crise no Supremo Tribunal Federal, Marina Silva destrincha o atual momento em dois pontos: o da crise, de extrema gravidade, que precisa ser resolvida; e o da necessidade de criar medidas estruturantes para que situações como essa não se repitam. A candidata defende ainda a necessidade de acelerar o processo de reforma no Judiciário e da consolidação de um código de ética para orientar o comportamento de ministros.
“Talvez não fosse necessário [haver um código de ética específico ao STF], porque a própria Constituição já diz que qualquer pessoa que vai para o serviço público deve observar os estritos fundamentos da probidade, da impessoalidade e da transparência. Quando esses princípios são feridos, você precisa de algo mais. E aí o código de ética entra para vir em socorro da falta de cumprimento desses princípios constitucionais”, analisa em entrevista concedida no último dia 16 de setembro, um dia após o julgamento de Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal (STF), que terminou sem uma definição sobre uma possível investigação do ministro por seu suposto elo com Daniel Vorcaro, do Banco Master.
“São graves os fatos que foram revelados referentes ao ministro Alexandre de Moraes, mas também é grave termos uma ação no Supremo que está muito contaminada pela conjuntura política. Porque, quando se revelam fatos para um lado e outros são guardados em segredo de Justiça, isso demonstra [uma tomada de] partido político, como, ao que tudo indica, tem sido feito pelo ministro Mendonça" -- Marina Silva
Sobre a possibilidade de impeachment de ministros do Supremo serem pautados no Congresso, Marina pondera que o processo é previsto na Constituição Federal, que o Senado tem o mandato constitucional para aprovar ou desaprovar, mas o que não pode acontecer é a “banalização do impeachment”.
“Se alguém cometeu o crime, se ficar comprovado que esse alguém incorreu em crime de responsabilidade, é papel do Senado [discutir o impeachment]. [...] Agora, nós sabemos que o próprio Congresso Nacional, as duas casas, precisam olhar para si próprios. Nós temos muitos casos, e casos graves, de quebra de decoro parlamentar, em que os parlamentares não levaram às últimas consequências no conselho de ética. Os mecanismos de autocorreção previstos na lei ou na Constituição devem ser aplicados sem dois pesos e duas medidas”, diz Marina.
O próximo presidente eleito poderá indicar ao menos três ministros por causa da aposentadoria compulsória de 75 anos -- o que atinge Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. E há também a cadeira vaga de Luís Roberto Barroso, que se aposentou antecipadamente e que Lula teve sua indicação, de Jorge Messias, rejeitada pelo Senado. Com relação à renovação, o que Marina defende é que se tenha ao menos uma mulher.
“É preciso que tenhamos a oportunidade de fazer essa reparação histórica em relação à presença das mulheres. Somos apenas 18% na Câmara dos Deputados, 19% no Senado, e, no Judiciário, é inadmissível que não sejam indicadas mulheres.”
Candidatos ao Senado chamam Marina, que nasceu no Acre e teve sua trajetória política fortalecida na região Norte, de forasteira por disputar uma vaga ao Senado por São Paulo. Ela rebate, dizendo que o povo paulista já confiou nela ao a eleger deputada federal pelo Estado em 2022. Marina reforça que é casada com um paulista, que já recebeu título de Cidadã Paulista há mais de 30 anos e que tem uma relação histórica com São Paulo.
“Em 2022, duas pessoas ganharam notoriedade na conjuntura política nacional por mudarem o seu domicílio eleitoral dos seus estados de origem para São Paulo. Uma delas fui eu. Outra pessoa foi Tarcísio, que hoje é o governador de São Paulo, que mudou seu domicílio do Rio de Janeiro para São Paulo, concorreu ao governo e ganhou. Eu não vejo ninguém cobrando isso de Tarcísio” -- Marina Silva
Para a candidata, a chamar de forasteira é também ofender as milhares de pessoas que vieram de outros estados para construir um São Paulo melhor. “Essas pessoas não são cidadãos de segunda classe, são de primeira classe. Se eles podem votar neles, eles também podem ser votados.”
Em 2018, quando concorria à presidência da República, Marina chegou a dizer que Lula era corrupto e que não se arrependia de ter apoiado o impeachment de Dilma Rousseff (PT), em 2016. De lá para cá, voltou a ser ministra do Meio Ambiente no governo do petista e agora concorre ao Senado também como aliada. O que mudou com relação às percepções? As críticas permanecem?
“O que mudou foi esse País”, responde Marina, de bate-pronto. Sem responder diretamente a pergunta, ela diz ter ocorrido um assalto à democracia brasileira e cita a trama golpista do 8 de Janeiro. “Todos os democratas se uniram e graças a Deus que existiu o presidente Lula para defender a democracia. E eu sou ministra pela terceira vez e pela terceira vez fizemos um excelente trabalho”, argumenta, citando que agora a soberania também está sendo ameaçada.
"Em relação ao impeachment [da então presidenta Dilma Rousseff] tinha um contexto ali colocado. E ele foi colocado do mesmo jeito que, em 2014, que um contexto em que nos colocou em polos diferentes. Eu não vejo as pessoas fazendo essas mesmas perguntas para a situação de 2014. Eu acho que ninguém faz política com o fígado. Eu faço política com o coração. Política, para mim, é serviço" -- Marina Silva
São Paulo bateu recorde de feminicídios em 2025. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), de janeiro a dezembro foram 270 ocorrências -- o equivalente a uma mulher assassinada a cada 32 horas no Estado. O que fazer para mudar isso?
Outra coisa que é fundamental fazer para as mulheres é garantir que elas tenham autonomia. Uma mulher precisa de acesso à creche para poder trabalhar, para poder estudar. Mulheres muitas vezes precisam de crédito para poder investir, abrir seu próprio negócio. Mulheres precisam de tempo. Por isso, o fim da jornada 6 por 1, para que as mulheres tenham mais tempo para se dedicar a si mesmas, à sua família. [Elas precisam de] transporte, uma rua iluminada, uma casa"
O caminho, para Marina Silva, é o que já está sendo trabalhado para que aconteça: ela cita o funcionamento 24 horas de delegacias com profissionais capacitados para receber mulheres vítimas de violência e a importância de fortalecer a rede de proteção. Marina reforça a importância de acesso à creche, trabalho, estudo, crédito e tempo para que essas mulheres tenham autonomia.
O Congresso tem discutido sobre a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, e o assunto também se faz presente nas campanhas eleitorais deste ano. Para Marina, não é de agora que vê a pauta da segurança pública como uma prioridade a ser discutida, e que a questão de violência cometida por crianças ou adolescentes transpassam a questão da segurança -- mas reforça que já há uma estrutura específica para esses casos.




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