Nas festas de Vorcaro, autoridades esperavam poder contar com um sigilo absoluto, mas a atração pelo status e o apelo da busca pelo prazer memorável estavam lá

“Não me convidaram pra essa festa pobre”, já cantava Cazuza no final dos anos 1980. Convescotes VIP entre homens de negócios e autoridades públicas que servem para estabelecer ou reforçar relações de compadrio, enquanto a maioria da população permanece “do lado de fora”, não são novidade nos bastidores do poder.

Para citar apenas um episódio bem conhecido da história recente do País: em 2005, durante a CPI dos Correios que revelou o esquema do Mensalão, vieram à tona relatos de festas privadas frequentadas por parlamentares e outras autoridades em Brasília, com a presença de garotas de programa, e bancadas por empresas interessadas em influenciar decisões públicas.

Mas nunca a ironia da expressão “festa pobre” fez tanto sentido. Os eventos organizados e patrocinados por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, conforme detalhes revelados nos últimos dias, destacam-se pelo luxo ostensivo, pela superprodução e pela variedade de homens poderosos na lista de convidados.

Na era da experiência — em que gozar os prazeres da vida e colecionar vivências memoráveis se torna tão importante quanto acumular bens materiais —, convites para festas premium, viagens exclusivas, hospedagens caras, passeios em iates, entretenimento sexual e degustação de charutos e uísques premiados tornam-se formas atrativas para comprar favores. Isso, claro, sem prejuízo das malas de dinheiro, dos contratos marotos e dos cartões de crédito com limites estratosféricos.

A valorização da experiência é uma característica do atual estágio da sociedade de consumo. A partir de um certo nível de renda, em que moradia e consumo básico estão assegurados, viagens, shows, gastronomia, lazer e bem-estar entram com mais firmeza no orçamento individual e no imaginário de status social. Entre os mais jovens, especialmente os da geração Z e os millenials, a disposição em se endividar no cartão de crédito para viajar ou ir a festivais de música em vez de guardar dinheiro para comprar um carro ou a casa própria intriga os especialistas em comportamento dos consumidores.

Surgiu uma “economia da experiência”, em que os produtos e até mesmo o ato da compra em si são descritos como parte de uma vivência. Levado ao extremo pelos departamentos de marketing, o fenômeno pode soar artificial. Tomar um café em um local instagramável é apresentado como uma “jornada sensorial”. Ir a uma loja vira uma “imersão”. Pagar por um serviço torna-se um “momento singular”.

A identidade pessoal e os vínculos sociais passam a ser definidos menos pelo que se possui e mais pelo que se vive — se possível, compartilhando as experiências nas redes sociais para que todos vejam. Nas festas de Vorcaro, as autoridades esperavam poder contar com um sigilo absoluto, mas a atração pelo status e o apelo da busca pelo prazer memorável estavam lá.

A dificuldade de certas autoridades em resistir à tentação das experiências oferecidas por homens de negócios interessados em criar vínculos de cumplicidade e favoritismo existe também em outros países, obviamente.

Em anos recentes, nos Estados Unidos, dois juízes da Suprema Corte, Clarence Thomas e Samuel Alito, aceitaram convites para viagens e hospedagens de alto padrão bancados por bilionários com interesses na corte — e não relataram devidamente os mimos, como exige a norma.

Pela lei brasileira, não é preciso haver transferência de dinheiro — a propina em sua forma mais conhecida — para configurar vantagem indevida. Se o objetivo é influenciar alguém, obter privilégios ou gerar, na autoridade pública, um sentimento de obrigação e retribuição, convites para experiências de luxo e hedonismo estão longe de ser inofensivos. Isso não é lobby nem amizade, é bandalheira.

Jornalista e comentarista político, foi editor executivo da Veja entre 2012 e 2018. Posteriormente, foi redator-chefe da Istoé, colunista de política do UOL e comentarista da Jovem Pan News. É mestre em Relações Internacionais pela USP.

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