Ayesha frequenta uma escola secreta seis dias por semana, principalmente para continuar vendo pessoas fora de casa. Segundo ela, é a única maneira de evitar o isolamento total sob o regime do Talibã . É a única maneira de se sentir viva. Leia mais (09/01/2026 - 04h30)

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Ayesha frequenta uma escola secreta seis dias por semana, principalmente para continuar vendo pessoas fora de casa. Segundo ela, é a única maneira de evitar o isolamento total sob o regime do Talibã. É a única maneira de se sentir viva.

"Sem esse contato", disse ela, "não sei o que aconteceria comigo".

Hoje com 18 anos, Ayesha já sonhou em estudar psicologia na universidade. O Talibã pôs fim a esse sonho ao proibir, em 2022, a educação formal para meninas após o sexto ano.

Mas Ayesha desafia as regras do Talibã há anos, frequentando uma sala de aula escondida atrás dos corredores de uma escola primária. Milhares de programas desse tipo funcionam em todo o país às escondidas do regime.

As escolas clandestinas já foram vistas como uma solução provisória, uma forma de as meninas manterem os estudos em dia até que o Talibã deixasse o poder. Mas, cinco anos após o retorno do grupo, quase 2,5 milhões de meninas afegãs estão impedidas de frequentar o ensino secundário.

Elas podem ir a escolas religiosas ou estudar em casa com aulas particulares. Mas, em todo o país, meninas correm o risco de ser presas ao frequentar escolas secretamente. Outras fazem de tudo para serem reprovadas de propósito no sexto ano, para permanecer em sala de aula pelo maior tempo possível.

Diretores, professores e pais mantêm as escolas funcionando por meio de uma operação clandestina, lutando por aquilo que temem ser uma causa perdida: salvar da ignorância uma geração de meninas. Os líderes do Talibã não parecem dispostos a revogar a proibição, embora algumas autoridades locais tolerem as escolas secretas, preocupadas em negar educação às próprias filhas.

Em entrevistas com mais de 50 estudantes, educadores, terapeutas e pais, muitos disseram temer que a proibição cause danos permanentes —às meninas e ao tecido social do Afeganistão. Todos pediram para ser identificados apenas pelo primeiro nome, por medo de represálias.

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Mesmo as meninas que concluem os estudos têm poucas perspectivas; o Talibã proibiu as mulheres de exercer a maioria das profissões, e são escassas as oportunidades de ir para o exterior. Segundo professores e organizações humanitárias, aumentam os relatos de pensamentos suicidas e automutilação, assim como os índices de casamento de menores.

Ainda assim, algumas meninas se recusam a abandonar a luta por educação.

"Nós também fazemos parte desta sociedade", disse Ayesha. "Apenas nos deixem ser quem queremos ser."

Certa noite, Ayesha recebeu uma mensagem de sua amiga Zuhal, 17, dizendo que não iria à aula no dia seguinte. O pai de Zuhal havia batido nela, afirmando que não havia motivo para frequentar uma escola clandestina.

Ayesha se lembra de ter chorado ao ler a mensagem de Zuhal. Entre as amigas, ela ficou conhecida como aquela em quem podem confiar, a aprendiz de terapeuta. Ayesha disse que rezou no quarto e insistiu para que Zuhal voltasse.