Novos serviços prometem cuidado contínuo entre as consultas, mas há controvérsias sobre testes e uso de dispositivos vestíveis

O mercado de saúde premium tem diversificado produtos, indo além do check-up anual. Hospitais, laboratórios e clínicas de alto padrão passaram a oferecer acompanhamento contínuo, com atenção à saúde mental, ao sono e à alimentação, além de exames preditivos e de dados de relógios e anéis inteligentes.

Segundo estudos da consultoria Bain & Company, o mercado da saúde de luxo no Brasil passou de R$ 13 bilhões em 2022 para R$ 15 bilhões em 2025, um crescimento acumulado de 15,4%, equivalente a uma taxa média de crescimento de cerca de 5% ao ano.

Para consultores, mais do que buscar tratamentos da medicina de luxo, o público de alta renda tem procurado atendimento personalizado e experiências completas de bem-estar, longevidade, performance física, equilíbrio emocional e acompanhamento individualizado dentro de uma jornada contínua por anos.

Para o consultor de inovação em saúde Guilherme Hummel Sydow, do EMI-eHealth Mentor Institute, a oferta de serviços premium personalizados é uma tentativa do setor de manter algum nível de fidelização da clientela diante do avanço da inteligência artificial.

Segundo ele, a IA vem barateando exames, procedimentos e monitoramentos por meio de vestíveis, o que permite aos serviços de saúde oferecê-los como vantagem ao paciente. Sydow diz que o monitoramento após a alta hospitalar é um dos serviços que devem crescer. "Hoje, quando você sai do hospital no Brasil, ninguém liga, ninguém quer saber como você está. Isso vai mudar."

O Einstein Hospital Israelita acaba de lançar um check-up de saúde mental para executivos. Em cerca de cinco horas, o paciente passa por cinco etapas, começando por uma consulta com psiquiatra sobre estilo de vida e estresse.

Também são feitos testes cognitivos com óculos de realidade virtual, avaliação de personalidade com neuropsicóloga, análise de alimentação e do "comer emocional" e biofeedback, que mostra como o corpo reage à tensão. O serviço custa R$ 6.800 para pessoa física.

"A ideia é dar a mesma atenção à saúde mental que a gente dá à saúde física", diz o psiquiatra Luiz Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein Bem-Estar e Saúde Mental.

Duas semanas depois, o paciente recebe um laudo integrado e, se for o caso, é encaminhado a tratamento no próprio hospital. Para executivos acima de 60 anos, diz ele, o exame pode revelar comprometimento cognitivo leve.

O serviço também busca envolver a alta liderança das empresas e reduzir o estigma. "Programas de saúde mental só funcionam se eles têm apoio da alta liderança", afirma Zoldan.

O Hospital Alemão Oswaldo Cruz também investe em avaliação da cognição, com um centro de memória que reúne testes, equipe multidisciplinar e quatro consultas para tentar adiar a perda cognitiva.

O check-up, de cerca de R$ 4.000 (R$ 500 a mais para mulheres), segue o modelo clássico, mas inclui avaliação de estresse com psicólogo e um plano de exercícios com educador físico.

Contratado em geral pelas empresas, o serviço tem margem baixa e funciona como "uma experiência diferenciada com o público formador de opinião e tomador de decisão", segundo José Marcelo de Oliveira, CEO do hospital.

Se algo for detectado, o tratamento passa a ser coberto pelo plano de saúde. A próxima fronteira, diz Oliveira, são os testes de risco genético conforme o histórico familiar, como os de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, ligadas ao câncer de mama.

O Grupo Fleury investiu R$ 35 milhões no Lifecare, centro de longevidade inaugurado em maio para adultos a partir de 35 anos. A empresa estima que o setor da longevidade movimente R$ 38 bilhões por ano no país.

A consulta inicial custa R$ 1.500, e os exames variam conforme o paciente. O resultado é um "mapa de saúde", acompanhado por aplicativo, com serviços como nutrição, ioga e mindfulness.

O centro também oferece o relógio epigenético, que estima a idade biológica pelo DNA, e o Galleri, exame de sangue que busca sinais de mais de 50 tipos de câncer.

Segundo o endocrinologista Pedro Saddi, coordenador médico, a maioria dos pacientes é de mulheres de 40 a 55 anos que já se exercitam e chegam com exames recentes. As queixas mais comuns estão ligadas à transição para a menopausa, como névoa mental e "muito distúrbio de sono".

Uma surpresa foi a vacinação incompleta. "Na criança, quem cuida de vacinação é o pediatra. No adulto, não tem uma especialidade que cuida." O desafio é a adesão, prejudicada pela falta de tempo e pelo trânsito. O centro estuda levar alguns serviços à casa do paciente.

A expansão imobiliária para o interior paulista, que bateu recorde em 2025 segundo o Secovi-SP (entidade que representa as empresas do mercado imobiliário e condominial), tem levado esse tipo de serviço para fora da capital. A Le Health, inaugurada neste mês no complexo da Fazenda Boa Vista e do Boa Vista Village, aposta no monitoramento remoto por meio de wearables.