Metade das emendas de vereadores paulistanos liberadas pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) em 2025 foi destinada a eventos, contratações artísticas e projetos esportivos, apontam dados do Portal da Transparência da cidade. Leia mais (06/21/2026 - 18h26)
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21.jun.2026 às 18h26
Metade das emendas de vereadores paulistanos liberadas pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) em 2025 foi destinada a eventos, contratações artísticas e projetos esportivos, apontam dados do Portal da Transparência da cidade.
As 1.208 emendas feitas no ano passado somaram R$ 237,3 milhões e ficaram concentradas nas pastas de Cultura e de Esporte. Juntas, elas tiveram 607 emendas com um custo de R$ 114,5 milhões —50,2% das indicações e 48,3% dos recursos liberados.
Em comparação, as emendas encaminhadas para execução pelas secretarias de Saúde e Educação responderam por 8,6% e 0,7% dos recursos, respectivamente.
Na Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, as emendas para projetos esportivos somaram R$ 67,5 milhões no ano passado.
Eventos e contratações artísticas somaram R$ 56,4 milhões em emendas distribuídas por diferentes órgãos municipais. A Secretaria Municipal de Cultura recebeu R$ 30,4 milhões desse total.
Essas emendas foram destinadas a shows, festivais, festas e circuitos, além de objetos descritos de forma genérica, como "apoio à realização de eventos", "circuito de cultura" e "atividades culturais nos bairros", segundo a base de dados.
Para Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getulio Vargas (FGV), a prática já virou tradição e faz com que as emendas sirvam mais para fortalecer a base eleitoral dos parlamentares do que para políticas públicas. "Não tem critério público, serve mais para gerar benesses aos eleitorado e servir como capturador de votos", diz. Segundo ele, "deveria ter debate público sobre a destinação desses recursos".
Parte relevante do dinheiro aparece na base sob rótulos genéricos. Das 268 emendas destinadas à Cultura, 108 foram registradas como apoio à realização de eventos via CPROG (Coordenadoria de Programação Cultural), Circuito de Cultura e promoção de ações culturais. Juntas, elas somaram R$ 15,9 milhões —37% dos recursos destinados à pasta em 2025.
Diferente da maioria das emendas, que contêm descrição clara do tipo de contratação, como nome do projeto, essas classificações, sozinhas, não permitem saber quem recebeu o dinheiro, o que foi contratado, onde a ação ocorreu, qual público foi atendido ou qual entrega foi realizada. Para rastrear o destino dos recursos, a reportagem precisou consultar notas de pagamento e processos administrativos ligados à execução das emendas.
O principal exemplo é a CPROG. Ao menos 19 emendas, que totalizaram R$ 9,2 milhões, mencionavam o órgão, responsável pela programação cultural da secretaria. A base da prefeitura, porém, não detalha qual projeto foi financiado nem qual entidade recebeu os recursos.
É o caso, por exemplo, de R$ 3,7 milhões destinados pela vereadora Pastora Sandra Alves (União Brasil), que aparecem na base da prefeitura como "apoio à realização de eventos via CPROG" e "circuitos culturais".
Procurada, a vereadora afirmou que "os recursos foram direcionados por meio dos instrumentos legais previstos na legislação municipal" e que a destinação das emendas segue critérios de interesse público.
Em um dos mais caros projetos culturais custeados via emendas no ano passado, oito vereadores destinaram conjuntamente R$ 2,4 milhões à Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo para o projeto "Dia das Crianças 2025".
Apresentado pela entidade como seu primeiro desfile mirim, o evento foi realizado em 12 de outubro do ano passado na Fábrica do Samba, complexo que reúne barracões de escolas de samba no Bom Retiro, região central da cidade.