Janaína Feijó e Paulo Peruchetti: emprego está em desaceleração, o que deve afetar também a subocupação, que já se encontra em suas mínimas históricas Leo Pinheiro/Valor Quase metade dos trabalhadores subocupados (47,6%) estão concentrados em apenas 16 de 434…

Quase metade dos trabalhadores subocupados (47,6%) estão concentrados em apenas 16 de 434 tipos de ocupações, mostra levantamento dos pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) Paulo Peruchetti e Janaína Feijó, a partir dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O estudo mostra o perfil desse conjunto de trabalhadores, mais conhecidos como subocupados por insuficiência de horas trabalhadas. São as pessoas com jornada de trabalho inferior a 40 horas por semana e que gostariam de trabalhar mais.

Além disso, o trabalho do FGV Ibre faz um mapeamento detalhado de um grupo maior do qual os subocupados fazem parte: os trabalhadores subutilizados, também conhecidos como mão de obra desperdiçada. É um contingente que inclui ainda as pessoas desempregadas, que são aquelas que buscam oportunidades, e os trabalhadores que não buscam emprego, mas gostariam de trabalhar. Isso inclui os desalentados, que são aqueles que desistiram de procurar por acreditarem que não conseguirão vaga, seja por questões pessoais - idade ou qualificação - ou pelas condições do mercado local.

“A subutilização é um dado que aponta um panorama maior da vulnerabilidade do mercado de trabalho do que só o desemprego. A partir dessa ótica, a gente observa uma redução desse contingente de subutilizados, com os valores nas mínimas históricas. E isso é puxado essencialmente pela redução dos desocupados [desempregados]”, afirma Peruchetti.

Ao todo, o Brasil tinha 4,075 milhões de pessoas na condição de subocupados no segundo trimestre de 2026. É o menor contingente desse grupo para um segundo trimestre na série histórica da pesquisa, que começa em 2015 neste indicador. Para todos os trimestres, este é o quarto menor contingente. O número caiu 6,6% no segundo trimestre deste ano ante o primeiro trimestre e 11,5% em relação a igual período de 2025.

Desses 4,075 milhões de trabalhadores subocupados no segundo trimestre de 2026, 1,94 milhão (47,6%) estão em apenas 16 atividades. O principal destaque é dos trabalhadores dos serviços domésticos em geral, que somam 448,3 mil pessoas e são 11% do total dos subocupados.

Na lista de 16 ocupações, também aparecem trabalhadores elementares da agricultura e da pecuária, especialistas em tratamento de beleza e cabeleireiros, professores de ensino fundamental, cuidadores de crianças, garçons, cozinheiros e condutores de veículos, entre outros.

Ocupações são “serviços não essenciais, famílias elas conseguem sobreviver sem e ajustar conforme flutuações na renda” — Diana Gonzaga Os pesquisadores apontam que essas ocupações mais presentes entre aqueles com jornada semanal inferior a 40 horas semanais e com interesse em trabalhar mais são ligadas principalmente aos setores de serviços e comércio e não exigem nível elevado de escolaridade.

“A presença entre os subocupados geralmente tem a ver com o tipo de vínculo, marcado pelo trabalho por conta própria, e também com o setor, principalmente serviços e comércio. Também pode ter a ver com a dinâmica do mercado em cada região”, diz Janaína Feijó.

Professora de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Diana Gonzaga aponta que muitas das ocupações mapeadas no levantamento são exercidas por profissionais que precisam de alguma flexibilidade na jornada de trabalho, como é o caso de mulheres que trabalham e ao mesmo tempo conta de demandas familiares de cuidado:

“Pode haver uma combinação entre quem precisa de flexibilidade, mas também quer aumentar o número de horas para aumentar a renda”.

Uma semelhança entre essas ocupações, segundo Gonzaga, é o fato de estarem ligadas a serviços não essenciais, que sofrem influência da demanda. Com isso, há uma flutuação maior das horas trabalhadas.

“Nessas ocupações, estão serviços domésticos, tratamentos de beleza e cabeleireiro, cozinheiros, garçons, serviços de cuidados, serviços de limpeza... Podemos pensar como serviços não essenciais, no sentido de que as famílias elas conseguem sobreviver sem o consumo e ajustar conforme flutuações na renda”, diz.

O trabalho dos pesquisadores do FGV Ibre também destaca o perfil mais amplo dos subutilizados. Grupos tradicionalmente mais vulneráveis - como das regiões Nordeste e Norte, mulheres e mais jovens - são desproporcionalmente mais afetados também nos indicadores de subutilização, mostra o estudo.

No segundo trimestre de 2026, a taxa de subutilização média no Brasil era de 12,9%, abaixo dos 21,4% do Nordeste e dos 15,7% do Norte do país. Como referência das disparidades, o percentual era de 7,1% no Sul e de 8,3% no Centro-Oeste.

Ao mesmo tempo, o percentual entre mulheres era de 15,7%, ante 10,7% daquele dos homens. O grupo etário mais jovem - entre 18 e 29 anos - tinha taxa de 17,9%, acima dos 10,3% da média do grupo de 30 a 59 anos. Pela ótica de grau de instrução, o percentual era de 17,6% entre os trabalhadores com menos que o ensino médio completo e de 6,9% no grupo com ensino superior completo.

“A subutilização está em suas mínimas históricas, mas ainda tem padrões diferentes, a depender dos grupos sociodemográficos. Há quedas expressivas e alguma redução de diferença, mas as heterogeneidades permaneceram”, diz Feijó.

O mercado de trabalho começa a dar sinais de desaceleração, afirma Peruchetti, com redução no ritmo de crescimento de vagas. A tendência, segundo ele, é que isso também se reflita nos indicadores de subutilização em algum momento, mas diz que é difícil avaliar qual dos subgrupos seria mais atingido.