Na pesquisa Nexus/BTG Pactual, Augusto Cury deu um salto de 9 pontos percentuais em uma semana, saindo de 2% para 11% das intenções de voto no primeiro turno, tornando-se o primeiro candidato fora da polarização a atingir dois dígitos. O mesmo se observa na p…
Na pesquisa Nexus/BTG Pactual, Augusto Cury deu um salto de 9 pontos percentuais em uma semana, saindo de 2% para 11% das intenções de voto no primeiro turno, tornando-se o primeiro candidato fora da polarização a atingir dois dígitos. O mesmo se observa na pesquisa espontânea, na qual saltou de 0% para 8%.
Na Atlas/Bloomberg, o candidato registrou 7,8% das intenções de voto (ante 1,6% no levantamento de julho), aparecendo tecnicamente empatado com Renan Santos (Missão), que tem 7,6%.
Augusto Cury é uma versão gourmetizada do coach de autoajuda. O “ex-ateu” de vitrine, escritor de best-sellers, especialista em frases reconfortantes e respostas simples para angústias complexas. Durante anos, sua literatura circulou entre jovens e adultos como mais um produto de um mercado que aprendeu a transformar sofrimento, ansiedade e insegurança em mercadoria.
Mas há um detalhe geracional que me interessa muito mais: aquelas crianças cresceram e hoje, elas votam. Cury não chegou até elas apenas pelas prateleiras das livrarias. A Escola da Inteligência, sua empresa, transformou suas ideias em produto educacional: livros para alunos, materiais destinados às famílias, formação de professores e aulas semanais inseridas na rotina escolar.
As escolas precisavam atender às novas exigências curriculares. O mercado educacional percebeu a oportunidade. Grandes sistemas forneciam o material curricular tradicional enquanto programas especializados ocupavam o espaço socioemocional. Em escolas que utilizavam sistemas como Objetivo e Anglo, por exemplo, é possível encontrar a Escola da Inteligência funcionando como solução complementar.
A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) não criou esse mercado. Encontrou um mercado pronto para crescer. A dimensão empresarial do fenômeno talvez seja ainda mais reveladora. Em 2020, a Escola da Inteligência foi adquirida pela Arco Educação, uma das gigantes brasileiras do setor educacional. Aquilo que poderia parecer apenas um conjunto de ideias de um escritor de autoajuda já havia se transformado numa solução educacional escalável.
É também aqui que Cury e Pablo Marçal começam a caber na mesma fotografia cultural. Marçal oferece espetáculo, confronto e vulgaridade. Cury oferece serenidade, família, emoção e verniz intelectual.
Na embalagem, são diferentes, porém, há uma afinidade fundamental: a promessa de respostas individuais e relativamente simples para um mundo estruturalmente complexo. O foco permanente na superação pessoal, na disciplina, na mentalidade e na gestão da própria vida.
Depois do debate da Band, Cury ganhou 2 milhões de seguidores no Instagram, enquanto vídeos com suas falas a inundaram as redes sociais. É possível que esse crescimento não seja orgânico. Marçal pode ter dado uma mão para esse resultado acontecer.
O problema nunca foi simplesmente a existência de sujeitos vendendo fórmulas milagrosas. Gurus existem desde que o mundo é mundo. O problema contemporâneo é a existência de um mercado gigantesco e de uma subjetividade especialmente receptiva a eles.
Depois disso Augusto Cury subiu em todas as pesquisas entrando no jogo.
Marçal é uma máquina pic.twitter.com/aIPwFEf15r
— Miguel Junior Investe (@migueljrinveste) August 31, 2026
E é justamente por isso que considero insuficiente a explicação preferida dos especialistas de bancada. Quando fenômenos como Pablo Marçal explodem eleitoralmente, imediatamente aparecem algoritmos, robôs, redes sociais e fake news como explicação universal.
O sujeito quer pertencimento. Quer prosperidade. Quer explicação. Quer alguém capaz de organizar o caos em meia dúzia de princípios suficientemente simples para caber num vídeo, numa palestra, num livro ou numa frase compartilhável.
É nesse ambiente que os manipuladores reinam. Depois que Marçal cresce, explicam Marçal. Depois que Cury aparece, explicam Cury. Depois que milhões já foram capturados, descobrem a manipulação.


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