Massas camponesas de Soledade de Minas (MG) denunciam as péssimas condições das estradas rurais no bairro do Paiol devido ao descaso do velho Estado. Moradores apontam o caráter paliativo e eleitoreiro das obras da prefeitura e defendem a organização independente como única via para arrancar seus direitos.

Massas camponesas e demais residentes do município de Soledade de Minas (MG) denunciaram ao AND, neste mês de junho, as severas dificuldades que enfrentam com as estradas rurais no bairro São Sebastião do Paiol. A completa falta de infraestrutura para conter as águas das chuvas, a profusão de buracos e os danos decorrentes de métodos incorretos de manutenção foram alguns dos principais problemas relatados. A denúncia de que as estradas da região nunca estiveram em condições tão precárias foi manifestada de forma unânime por dezenas de moradores que conversaram com a reportagem.

A técnica de manutenção atualmente empregada pela prefeitura é extremamente atrasada e considerada por alguns moradores como típica do século XIX. Na avaliação das massas, existem meios técnicos modernos de realizar obras que garantiriam a trafegabilidade por anos.

“Existe um método que funciona assim: se a estrada estiver muito baixa, você joga terra e eleva o nível dela, construindo uma pista com uma leve curvatura para que a água tenha vazão para as laterais, onde são feitos os cortes de escoamento. Em seguida, raspa-se a estrada, joga-se o material de agregação — que pode ser um cascalho fino ou até cimento —, molha-se a superfície e vem-se com um rolo compressor para compactar tudo. Isso dura de três a quatro anos”, comenta Ronan, camponês formado em biologia e morador do Bairro a Roseira há 11 anos.

Em maio deste ano, o AND havia denunciado a condição das ruas do município, que representavam um problema não só de acesso, mas de segurança.

Apesar da profunda insatisfação e das consecutivas denúncias apresentadas pelas massas ao longo dos anos, os políticos locais utilizam a precariedade das estradas rurais como moeda de troca. De acordo com os relatos, os gerenciadores de turno fazem-se constantemente presentes no bairro apenas às vésperas dos pleitos, prometendo melhorias nas vias para iludir o povo e arrastá-lo a participar da farsa eleitoral.

“As estradas rurais sempre foram usadas como balcão de compra de votos. Eles arrumam perto da eleição ou consertam apenas os trechos de quem tem boa relação com o prefeito. As máquinas da prefeitura também só trabalham para os fazendeiros grandes da região; param tudo para atendê-los. Eu acredito que é uma mescla de incompetência e politicagem: eles querem que você vá lá suplicar para o prefeito arrumar as estradas, ele concorda, aparece depois para fazer esse serviço porco, você fica feliz e vota nele, entendeu?”, denuncia Ronan.

Somado ao clientelismo, o cenário local é marcado pela degradação moral típica das instituições oficiais. Conforme noticiado por AND no ano passado, uma operação identificou um esquema de corrupção ramificado dentro da prefeitura de Soledade de Minas envolvendo uma empresa terceirizada. Dois empresários ligados ao Consórcio Intermunicipal Multifinalitário da Microrregião do Circuito das Águas (CIMAG) e dois funcionários do alto escalão foram investigados. O esquema consistia no desvio de verbas públicas por meio de pagamentos por supostos serviços de manutenção de estradas e coleta de lixo que nunca foram executados adequadamente. Apesar das prisões efetuadas na época, quase um ano após a operação, a situação das estradas permanece caótica.

“Nós, moradores, sofremos com um descaso total. Já tive de ir trabalhar a pé por causa do entulho largado pela prefeitura, e os camponeses sempre relatam a perda de materiais e de parte da lavoura que apodrece sem escoamento. Nossos veículos também estão sempre na oficina devido aos buracos. Eles vêm aqui, jogam terra, vão embora e deixam a gente nessa lama. Será que eles não olham a previsão do tempo?”, protesta uma moradora que optou por não se identificar por temor de retaliações.

Em diversos trechos de regiões vizinhas ao Paiol, como na localidade de Água Espalhada, as massas relataram ao comitê local que não há qualquer tipo de manutenção nas estradas há mais de dois anos. Em áreas rurais de menor densidade populacional, como em Lagoa Preta, os camponeses afirmam que o abandono é absoluto e que o poder público é completamente invisível.

Quando questionados sobre qual tem sido a resposta formal da prefeitura diante das reclamações, os entrevistados revelam o jogo de empurra das autoridades: “Eu já fui à prefeitura como cidadã e como presidente da associação. A resposta é sempre a mesma: dizem que temos de esperar o cronograma, que não há máquinas disponíveis no momento ou que faltava a empreiteira terceirizada estabelecer o orçamento da obra”, relata Ramona.

“Já fomos em comitivas de três a quatro pessoas lá, em várias frentes. Questionamos explicitamente, com base na diretriz orçamentária, quanto de recurso havia sido destinado para a manutenção das estradas, e a resposta que nos deram é que não sabiam informar com precisão. Comparecemos a audiências públicas e percebemos que eles já vão preparados para enrolar o povo. Você fala, fala, fala, eles escutam e não resolvem absolutamente nada. Fizemos inclusive uma reunião com um técnico da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais) e com o indivíduo que foi indiciado tempos atrás, mas nada avança. Você expõe o problema e as autoridades ficam com cara de paisagem, fingindo que não é com elas. Precisamos de um plano de ação mais concreto, de organização independente, porque só assim vamos conseguir arrancar nossos direitos”, conclui Ronan.

O Comitê de Apoio de AND tentou entrar em contato com o Departamento Rural do município para cobrar esclarecimentos, mas, como de costume, não obteve qualquer resposta até o fechamento desta edição.

Meses depois, ao constatarem que a prefeitura tentava desviar as máquinas para beneficiar fazendas latifundiárias vizinhas em detrimento das áreas camponesas, os trabalhadores agiram rápido. Em nova assembleia realizada no dia 6 de julho, decidiram sabotar a manobra bloqueando a operação das máquinas até que o compromisso com o povo fosse cumprido. Dois dias após o início do boicote popular, o maquinário patronal recuou. No dia 9 de julho, as massas decidiram pela ocupação total do prédio da prefeitura, concretizada logo no dia seguinte, 10 de julho. Mesmo sob severas ameaças do secretário de segurança local, os camponeses mantiveram-se firmes no cerco e arrancaram um cronograma formal, com início das obras fixado para dez dias depois.

As obras começaram efetivamente no dia 21 de julho de 2014, sendo rigorosamente vigiadas e fiscalizadas por comissões camponesas de base, sabotando as diversas tentativas da prefeitura de interromper o serviço antes do término. Entre o final de julho e o início de agosto, os camponeses realizaram cinco assembleias de balanço. O processo elevou radicalmente o nível de consciência coletiva e demonstrou que a conquista daquelas melhorias estruturais — que o velho Estado prometia e adiava por anos — só foi possível graças à ação direta e à recusa em negociar migalhas. O exemplo histórico de Ariquemes deixa uma lição cristalina para os moradores do Paiol: a organização independente das massas é a única via capaz de arrancar e defender os direitos do povo.