Como uma primeira-dama discreta chegou a uma posição de liderança na direita brasileira? Conheça a trajetória de Michelle Bolsonaro e a entenda a crise no bolsonarismo
A saída da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro da presidência do PL Mulher — a ala feminina do partido — na terça-feira (30/06) marcou um novo capítulo na crise entre a esposa e o filho de Jair Bolsonaro, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Até recentemente, a ex-primeira-dama, uma líder importante na direita brasileira, era vista como um fator catalizador para agregar votos a candidaturas. Políticos e analistas a colocam como a maior liderança feminina da política brasileira hoje, e sua força, dizem, vem de sua autenticidade como líder conservadora cristã.
Michelle vinha articulando candidaturas conservadoras em diferentes Estados e ganhou destaque em pesquisas de intenção de voto como opção competitiva para enfrentar o presidente Lula em outubro.
Mas nos últimos meses, a ascensão de Michelle Bolsonaro na política teria causado desconforto dentro do próprio PL, provocando turbulências no coração do bolsonarismo.
Sua crescente proeminência teria sido um dos fatores que fez o ex-presidente Jair Bolsonaro a escolher o filho Flávio como seu candidato ao Palácio do Planalto, em dezembro do ano passado.
Michelle chegou a ser apontada como possível candidata à vice-presidente numa chapa com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Repúblicanos), antes de Flávio Bolsonaro ser lançado por Jair ao Palácio do Planalto.
Mas a crise com Flávio alterou essa trajetória — e deixou o futuro incerto para a ex-primeira-dama.
Na semana passada, a crise de Michelle com Flávio atingiu um novo patamar após a ex-primeira-dama publicar um vídeo no qual disse ter recebido uma "punhalada" do enteado no ano passado, quando a família Bolsonaro viveu uma crise em torno das articulações políticas para as eleições no Ceará.
Ela disse que, na época, o senador a "maltratou" e tratou seu apoio como algo "insignificante".
Naquela ocasião, Michelle criticou diretamente a intenção do PL de apoiar Ciro Gomes (PSDB) na disputa pelo governo estadual, decisão que, segundo Flávio Bolsonaro, contaria com a aprovação do pai, dentro de uma estratégia para derrotar o PT no Estado — o governador Elmano de Freitas (PT) disputará a reeleição.
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As críticas ae Michelle foram feitas em novembro, durante evento de lançamento da pré-candidatura do senador Eduardo Girão (Novo) ao governo do Ceará, político bolsonarista com forte discurso conservador.
No dia seguinte, os irmãos Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro criticaram Michelle, e ela foi chamada de autoritária pelo hoje pré-candidato ao Palácio do Planalto.
Nos vídeos divulgados por Michelle pelo Instagram na semana passada, a ex-primeira-dama disse que sempre atuou com a concordância do marido e chamou as palavras contra ela de "duras" e com "tom agressivo".
"Os irmãos vieram juntos de forma coordenada, com textos bem parecidos uns com os outros. Pareceu combinado, premeditado", continuou.
Pouco depois dos vídeos de Michelle, Flávio Bolsonaro pediu desculpas publicamente à ex-primeira-dama. Em um texto publicado em suas redes sociais, Flávio afirmou que em nenhum momento ofendeu ou teve a intenção de ofender Michelle.
"Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher, pelo cuidado com meu pai e por tudo o que representa para o Brasil", escreveu.
O senador disse ainda que é natural que, em determinados momentos, "pessoas comprometidas com o mesmo propósito enxerguem caminhos diferentes", inclusive dentro de famílias: "Divergências de estratégia não significam divergências de princípios".
Na terça-feira, Michelle anunciou que está deixando a presidência do PL Mulher para se "dedicar integralmente" aos cuidados com o marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e a filha.




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