Um dos maiores sinais de que estamos numa corrida espacial é que reveses ocasionais podem mudar os rumos da disputa. O programa espacial chinês suspendeu o lançamento de sua missão robótica Chang'e-7 ao polo sul lunar apenas horas antes da decolagem, na semana passada, o que a levará a um adiamento de vários meses ?e pode dar a chance de os Estados Unidos pousarem primeiro em uma das regiões mais cobiçadas do satélite. Leia mais (08/30/2026 - 09h00)

Salvador Nogueira fala de onde viemos, onde estamos e para onde vamos

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Um dos maiores sinais de que estamos numa corrida espacial é que reveses ocasionais podem mudar os rumos da disputa. O programa espacial chinês suspendeu o lançamento de sua missão robótica Chang’e-7 ao polo sul lunar apenas horas antes da decolagem, na semana passada, o que a levará a um adiamento de vários meses –e pode dar a chance de os Estados Unidos pousarem primeiro em uma das regiões mais cobiçadas do satélite.

Tanto a Chang’e-7, desenvolvida pela Casc (corporação espacial estatal chinesa), quanto a primeira missão da empresa americana Blue Origin, a serviço da Nasa, com seu módulo de pouso Blue Moon Mark 1, miravam o entorno da cratera Shackleton, muito próxima ao polo geográfico sul lunar.

Originalmente, o lançamento americano estava marcado para o segundo semestre de 2026, o que daria a condição de ser o primeiro a chegar lá. Mas a explosão, em 28 de maio, do foguete New Glenn, da Blue Origin, na plataforma 36A da Estação da Força Espacial de Cabo Canaveral, na Flórida, descarrilou os planos. A empresa está reconstruindo a infraestrutura de solo, bem como fazendo correções para impedir novo acidente com o New Glenn, e é difícil que tudo esteja pronto até o fim do ano, o que empurrou o voo inaugural do Blue Moon Mark 1 para, pelo menos, o primeiro trimestre de 2027.

Isso deixou caminho livre para a Chang’e-7 ser a primeira a chegar lá –mas havia um tufão no meio do caminho, o Narra, que levou ao adiamento do voo no último domingo (23). A comunicação chinesa, como de costume, foi vaga e disse apenas o seguinte: "Com base nos princípios da prudência, confiabilidade e segurança absoluta, e após uma avaliação abrangente, a missão Chang'e-7 não atende aos requisitos de lançamento e não pode ser realizada dentro da janela de lançamento programada para este ano".

Se foi só o tufão na região do centro de lançamento de Wenchang, na ilha Hainan, ou algo mais, que levou ao adiamento, não sabemos. Fato é que sabemos, por um dos parceiros internacionais na missão, o Instituto de Pesquisa Narit, da Tailândia, que não há mais janelas de lançamento disponíveis para o voo em 2026. Vai ficar mesmo para 2027. Não se descarta um problema maior com lançador ou com a carga útil (composta de orbitador, pousador, rover e saltador), mas é possível também que a questão tenha a ver apenas com mecânica celeste.

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A Chang’e-7 pousaria num local onde há iluminação solar por mais de cem dias consecutivos, um elemento importante para a missão, não só para a manobra de pouso e para as operações de solo, mas também pelos meses de sensoriamento que as precederiam com o orbitador, a fim de viabilizar a alunissagem de alta precisão. O pico de iluminação da região dar-se ia, neste ano, em novembro de 2026, e o próximo, em novembro do ano que vem.

É concebível, portanto, que os chineses só voltem a tentar lançar a Chang’e-7 mais ou menos nessa mesma época, em 2027. Isso dará amplo tempo para que a Blue Origin faça sua tentativa de descer na cratera Shackleton e torne os Estados Unidos o primeiro país a descer por lá.

As duas nações, ao lado de parceiros internacionais, pretendem estabelecer bases lunares –eventualmente tripuladas– no polo sul lunar. Onde exatamente dependerá justamente dessas missões iniciais. A primazia certamente ajudaria qualquer futura delimitação de um perímetro das bases –algo que a própria Nasa já mencionou querer fazer com algumas de suas próximas missões lunares robóticas.

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