Enrique Huberman chega a um hotel isolado na costa argentina munido de uma explicação respeitável para uma viagem. Médico homeopata, culto e homem de elevada opinião sobre si mesmo, pretende aproveitar o retiro para escrever um pequeno texto sobre Petrônio, o autor romano do "Satíricon" . Leia mais (08/30/2026 - 15h00)
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Salvar para ler depois
Recurso exclusivo para assinantes
assine ou faça login
30.ago.2026 às 15h00
Sylvia Colombo Historiadora e jornalista especializada em América Latina, foi correspondente da Folha em Londres e em Buenos Aires.
Preço R$ 69,90 (160 págs.); R$ 34,90 (ebooK) Autoria Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares Editora Companhia das Letras Tradução Júlio Pimentel Pinto
Enrique Huberman chega a um hotel isolado na costa argentina munido de uma explicação respeitável para uma viagem. Médico homeopata, culto e homem de elevada opinião sobre si mesmo, pretende aproveitar o retiro para escrever um pequeno texto sobre Petrônio, o autor romano do "Satíricon".
Há, porém, outra razão que ele demora a admitir até para si: Mary Fraga. Talvez seja mais exato dizer que Huberman viaja tentando se convencer de que Mary não é a razão. O embaraço importa. Antes mesmo que haja um crime a investigar, Huberman já está ocupado em fabricar uma versão conveniente dos fatos.
Há nessa armadilha inicial muito do humor de "Os Que Amam, Odeiam", romance que o casal de intelectuais Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares publicou a quatro mãos em 1946.
Huberman pretende fugir do amor como quem se afasta da origem de uma doença. Médico, está acostumado a observar, diagnosticar, prescrever. Diante do próprio desejo, no entanto, sua capacidade de diagnóstico se mostra bem menos segura.
Ocampo e Bioy acrescentam então uma segunda armadilha à primeira. Uma tempestade violenta isola o hotel do restante do mundo. O retiro voluntário se transforma em confinamento. E os hóspedes, pessoas suficientemente privilegiadas para se afastar de suas vidas e passar uma temporada à beira-mar, se descobrem obrigados à convivência.
Uma das ironias mais interessantes do romance é que seus personagens podem fugir do mundo, mas acabam presos uns aos outros. A questão de classe atravessa o livro sem se converter em programa ou denúncia.
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de linkCadeado representando um link Copiar link Ícone fechar
No hotel, esse privilégio se converte em clausura. Quanto mais o mundo desaparece, mais os hóspedes se observam. E nenhum olhar é inocente. Desejo, ciúme, vaidade, ressentimento, atração e repulsa circulam por essa pequena sociedade que, protegida do exterior, começa a revelar suas próprias fissuras. Não demora muito até que toda essa fricção gere um crime, com a morte de um dos personagens centrais.
Mary Fraga está no centro desse círculo de afetos. Vista sobretudo pelos homens que a desejam, ela provoca fascínio e irritação, atração e suspeita. É tentador descrevê-la como uma mulher que manipula aqueles que se apaixonam por ela.
Huberman é o caso mais evidente. Vaidoso, ele se descobre vulnerável diante da ideia de amar. Viaja para recuperar o controle e encontra, no destino escolhido para esquecer Mary, a própria Mary. A tempestade fecha a porta atrás deles.
Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias
Quando a morte transforma o hotel em cena de crime, os sentimentos que pareciam pertencer ao domínio privado passam a adquirir outra natureza. O amor pode ser motivo. O ciúme, indício. A antipatia, suspeita. Quem amava pode ter odiado e quem odiava talvez desejasse.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário