Plenário da Câmara de Vereadores do Recife - Rafael Furtado/Folha de Pernambuco A Câmara de Vereadores do Recife expôs nos últimos dias dois males que corroem a vida pública: a intolerância religiosa e a falência do debate parlamentar.

Por 12 votos a 7, o plenário rejeitou ontem o projeto de lei da vereadora Jô Cavalcanti (Psol), que pretendia instituir o Dia Municipal da Mestra Ritinha - uma tentativa de resgatar a memória e a importância histórica, cultural e espiritual da Jurema Sagrada. Vedar esse reconhecimento fere o princípio elementar da liberdade de crença em uma cidade construída pela pluralidade. O problema, no entanto, ultrapassa a discriminação. A apreciação do projeto expôs a indigência intelectual. Em vez de argumentos sólidos,  o plenário assistiu ao desfile de ofensas: do vereador Thiago Medina (PL) - taxando a proposta de “porcaria” e comparando a religião a um “cabaré” - à autora da matéria, reagindo ao rotulá-lo de “fascista de merda”. O parlamento do Recife, batizado em homenagem ao abolicionista José Mariano, assemelhou-se a outros tantos espalhados pelo país, trocando a formulação de políticas públicas pela busca por engajamento digital. A espetacularização vez por outra se sobrepõe a decisões. O Recife padece de graves problemas estruturais - do déficit habitacional à mobilidade; da desigualdade socioeconômica à vulnerabilidade urbana. Não pode se dar ao luxo de sustentar debates rasos, pautados pelo desrespeito mútuo. Cabe ao eleitorado lembrar o poder do voto e garantir representantes à altura dos desafios da cidade.