Gastar menos dinheiro público, eliminar aditivos de prazo em obras e garantir que construções de grande porte sejam entregues rigorosamente [...]
Gastar menos dinheiro público, eliminar aditivos de prazo em obras e garantir que construções de grande porte sejam entregues rigorosamente dentro do cronograma previsto deixaram de ser promessas distantes para se tornarem mais reais na infraestrutura do Paraná. O estado consolidou-se como a principal referência nacional na adoção da metodologia BIM (do inglês Building Information Modeling, ou Modelagem da Informação da Construção), um sistema inteligente de modelagem tridimensional que alia processos colaborativos a um uso intensivo de tecnologia para projetar, orçar e fiscalizar obras públicas antes mesmo da primeira estaca ser colocada no canteiro.
Enquanto a Lei Federal de Licitações (14.133) e regulamentações estaduais passam a exigir o uso preferencial da metodologia em todo o país, o Paraná usa a estratégia da metodologia BIM há mais de uma década. O resultado prático para o cidadão e para os cofres públicos é a prevenção do desperdício: ao construir a obra virtualmente antes da execução física, erros de compatibilização entre projetos de arquitetura, estrutura, elétrica e hidráulica são corrigidos na tela do computador — evitando paralisações, desperdício de insumos e estouros de orçamentos.
Diferente do método tradicional — no qual arquitetos e engenheiros trabalham de forma isolada em plantas bidimensionais (em duas dimensões) e enviam dados fragmentados para planilhas de custos —, o BIM funciona como um ecossistema integrado. A ferramenta insere informações em tempo real no modelo 3D, permitindo extrair quantitativos de materiais de forma automatizada e simular todo o comportamento da estrutura.
A liderança do Paraná no setor de modelagem não ocorreu por acaso. O processo começou ainda em 2014 dentro da administração estadual, evoluiu para a criação de laboratórios de testes com projetos-piloto rodoviários em 2015 e foi formalizado pelo Decreto da Estratégia BIM/PR em 2019. O movimento culminou na obrigatoriedade do uso da metodologia para empreendimentos públicos que envolvam recursos estaduais.
O caso mais emblemático da aplicação dessa tecnologia no estado é a obra da Ponte de Guaratuba. Durante a fase de elaboração do projeto modelado em BIM, os engenheiros realizaram simulações de vento para analisar a resposta dos estais (cabos de aço de sustentação). A modelagem 3D identificou que, sob determinadas velocidades de vento, haveria risco de interferência e choque entre o cabeamento. O problema foi corrigido antes da execução. Durante a obra, o uso de drones acoplados à plataforma BIM alimentou os fiscais com dados em tempo real sobre o avanço físico.
A metodologia também tem garantido entregas dentro do prazo e custos controlados em obras como o Conselho Tutelar de Marialva, os projetos do Condomínio do Idoso (Cohapar) e novas contratações da Secretaria da Educação.
A consolidação do BIM como requisito legal e normativo nas esferas estadual e federal pressiona diretamente o mercado de trabalho e as instituições de ensino superior, encarregadas de formar os engenheiros e arquitetos que operarão esse novo ecossistema.
Para o professor Emerson José Vidigal, do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o papel da universidade pública é acompanhar a velocidade dessas transformações sem perder de vista a fundamentação prática da profissão.
Sobre os desafios enfrentados pelos recém-formados ao ingressar em mercados municipais menores ou em pequenos escritórios que ainda passam por transição digital, Vidigal pondera que a graduação oferece a base, mas o domínio completo das ferramentas exige tempo e continuidade.



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