Zuenir Carlos Ventura morreu nesta terça-feira, aos 95 anos. A morte foi confirmada pela família. ornalista e escritor pertenceu a uma geração de intelectuais e artistas que se identificavam no pensamento crítico característico da esquerda brasileira. Autor …
Zuenir Carlos Ventura morreu nesta terça-feira, aos 95 anos. A morte foi confirmada pela família. O jornalista e escritor pertenceu a uma geração de intelectuais e artistas que se identificavam no pensamento crítico característico da esquerda brasileira.
Autor de livros em que fatos da realidade registrada em reportagens davam depois conteúdo a narrativas literárias, era um persistente observador da vida cultural do país e de suas relações com a conjuntura política. Integrando jornalismo e literatura, constituiu o perfil profissional de sua longa carreira.
A vida urbana era um cenário em que encontrava motivação para fazer seu jornalismo de autor, sua literatura da realidade. “Cidade Partida”, livro sobre a violência e a desigualdade social, (prêmio Jabuti de 1994) é resultado das anotações do repórter em convivência com moradores de Vigário Geral, na zona Norte do Rio de Janeiro. Ali Zuenir colheu depoimentos e informou-se sobre a realidade cotidiana de violência e pobreza daquele bairro, nascido e expandido no mapa de desigualdades típicas do processo brasileiro de urbanização. Foi uma jornada a que se dedicou durante vários meses, levado pela repercussão do assassinato de 21 pessoas por um grupo de encapuzados, em agosto de 1993, que vingavam a morte de policiais militares envolvidos no tráfico de drogas.
Deixou o jornalismo diário no final da década de 1990, no “Jornal do Brasil”, e tornou-se colunista de “O Globo”. Em 1 de junho de 2011, o jornal dedicou a capa a ele, que completava 80 anos. A manchete, ilustrada com uma grande foto sua, dizia: “1931, o ano em que tudo começou”. Chamadas levavam ao texto interno e fotos de Zuenir com familiares e colegas de profissão, que também assinavam comentários em sua homenagem.
Nasceu em Além Paraíba, Minas Gerais, em 1 de junho de 1931. A família morou em Ponte Nova, também na Zona da Mata, antes de se mudar para Nova Friburgo. Nessa cidade da região serrana do Rio de Janeiro, auxiliava o pai no trabalho de pintar paredes. Foi contínuo, faxineiro em um bar, balconista de uma camisaria.
Estudava à noite. Concluído o curso secundário, foi morar na Capital, na casa de uma tia. Passou pelo exame vestibular na Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil (depois denominada Federal do Rio de Janeiro - UFRJ) e graduou-se em línguas neolatinas, que oferecia a opção do magistério. Queria ser professor.
Estudava, não tinha emprego. Morava na casa de uma tia em Vila Isabel. Aceitou trabalhar no arquivo da “Tribuna da Imprensa”, por indicação de Hélcio Martins, seu professor na Faculdade e chefe do setor no jornal de Carlos Lacerda.
Chegou à redação por acaso. Passava por ali quando Lacerda saiu de sua sala e perguntou quem poderia escrever sobre a morte de Albert Camus. Zuenir, que admirava o escritor e conhecia sua obra, ofereceu-se para a tarefa, num impulso. Saiu-se bem, com um artigo publicado na mesma página em que Lacerda escrevia. “Aí correu a lenda de que o contínuo do arquivo era um gênio. Não era uma coisa nem outra.” Foi convidado para ficar na redação ganhando três vezes mais. De noticiarista passou a redator. [Depoimento a Felipe Quintino em tese de doutoramento na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de S. Paulo].
Em 1959, candidatou-se a uma bolsa do governo francês para estudar no Centre de Formation des Journalistes, em Paris. A “Tribuna da Imprensa” publicaria seus textos de reportagem e opinião. Aquela década de transformações culturais, políticas, sociais, na França e em outros países, como também no Brasil, iria sugerir temas que estariam presentes em seu trabalho de jornalista e escritor pelos anos seguintes.
De volta ao Rio, vindo da França, começou a lecionar no curso de jornalismo da Escola de Comunicação. Ainda na UFRJ, também foi, depois, professor de técnica de redação na Escola Superior de Desenho Industrial, que mantinha uma área de comunicação verbal.
Deixou a “Tribuna” em desentendimento com Hélio Fernandes, o novo dono (o jornal passara um ano antes pelas mãos dos proprietários do “Jornal do Brasil”). O motivo foi sua recusa em admitir ficar no jornal enquanto outros jornalistas, em greve pelo pagamento de salários, fossem demitidos. Foi trabalhar no “Correio da Manhã”, como editor do noticiário internacional. Trabalharia ainda no “Diário Carioca”, “O Cruzeiro, “Fatos e Fotos”, “Visão” (onde chefiou a sucursal do Rio).
Em 1969, a revista “Veja” (para onde foi depois de “Visão”, também para chefiar a sucursal carioca) publicou uma série de 12 fascículos, encartados, intitulada “Os Anos 60 – A Década que Não Terminou”, produzidos por jornalistas sob sua direção.
Seu primeiro livro “1968 – O Ano que Não Terminou”, publicado em 1989 e reeditado dezenas de vezes, logo se tornou um sucesso de vendas (seria fonte de referência para Gilberto Braga escrever a série “Anos Rebeldes”, exibida pela TV Globo, ao lado de “O Que é Isso, Companheiro”, de Fernando Gabeira, e “Os Carbonários”, de Alfredo Sirkis).
No livro, Zuenir fala daquele ano em que “o Brasil e o mundo viveram um tempo apaixonado e apaixonante”, assinalado por revoltas que uniram estudantes e trabalhadores. Em epígrafe, uma frase de Mário de Andrade: “Não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição”.
Em “1968: O Que Fizemos de Nós”, de 2009, ele revê aqueles acontecimentos de uma perspectiva comparativa com traços de comportamento da juventude da primeira década do século XXI e seus reflexos sociais mais amplos. Relembra avanços importantes que frutificaram em 1968 e se expandiram, como os movimentos feminista, dos negros, dos gays e o ecológico – e “uma herança maldita, as drogas”.
Na apresentação de “1968 – O Ano que Não Terminou”, a escritora Heloisa Buarque de Holanda (que seria contemporânea de Zuenir na Academia Brasileira de Letras, ele eleito em 2014) define a competência do amigo num “procedimento [que] é uma extrema habilidade de escuta”, em que a entrevista (como se vê no livro) “não parece dirigida tão somente para o levantamento preciso de dados e fatos”. Na verdade, “Zu ouve um pouco mais. Descobre, na inflexão inevitavelmente ficcionalizada da memória, nostalgias, ressentimentos, desejos, sonhos, frustrações. Essa é a verdadeira matéria-prima que estrutura o trabalho de reconstituição do ano histórico de 1968 feita por Zuenir, autor e personagem. Trabalho de mestre”.
Heloisa (que depois trocaria o sobrenome para Teixeira) relembrava os muitos anos de amizade com Zuenir, “companheiros de militância, de faculdade, das famosas festinhas com alta incidência de cineastas, das discussões maoistas na praia e de pré-estreias no [cine] Paissandu, com passagem pelos debates da Cinemateca do MAM”.
Eram ocasiões para encontros de militantes de uma esquerda chamada “festiva”, nascida no Rio ainda antes do golpe de 1964 e crescida nos anos seguintes.
O qualificativo, inventado por brincadeira pelo jornalista Carlos Leonam, ele próprio um “festivo assumido”, era repetido em tom depreciativo, tanto à esquerda como à direita. Zuenir não se ofendia. “Era isso mesmo: uma alegria revolucionária. Eu usava essa expressão. Alegria também é revolucionária. Ficam as pessoas querendo amarrar a cara e achar que a política é só coisa séria e tem que ter mau-humor. Eu assumia como uma coisa legal. Sempre fui muito alegre, mas era pichado por isso”. [Na entrevista a Felipe Quintino]
Era ampla a frente cultural e política de resistência à ditadura, com iniciativas que procuravam despertar a atenção pública depois de pensadas em ambientes variados, festivos ou não. Foi assim que Zuenir e o jornalista Darwin Brandão decidiram criar o Centro de Estudos Modernos, pouco depois do golpe de 1964, para a realização de seminários culturais e de política internacional num teatro ao lado da igreja N. S. da Paz, em Ipanema. Os amigos também estavam entre os organizadores de debates realizados no Teatro Casa Grande sobre problemas brasileiros.




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