"Tem pais que deixam apartamento ou casa. Os meus me deixaram com R$ 6 milhões em dívidas", afirma Paloma Yumi. Aos 18 anos, a advogada começou a vida adulta carregando débitos de uma empresa da qual se tornou sócia aos 16. Leia mais (06/23/2026 - 06h00)
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"Tem pais que deixam apartamento ou casa. Os meus me deixaram com R$ 6 milhões em dívidas", afirma Paloma Yumi. Aos 18 anos, a advogada começou a vida adulta carregando débitos de uma empresa da qual se tornou sócia aos 16.
Hoje, sua história integra o Movimento Criança sem Dívida, que reúne vítimas de abuso financeiro infantil e presta assistência psicológica e jurídica aos integrantes.
Emancipada ainda na adolescência para ocupar o cargo de sócia em uma das empresas abertas por seus pais, Paloma viu o negócio falir pouco tempo depois de atingir a maioridade. O empreendimento aberto em seu nome passou a responder também por débitos acumulados por outras companhias administradas por seus responsáveis. Aos 18 anos, ela já devia R$ 6 milhões no seu CPF.
"Eu não podia ter telefone, boleto no meu nome, não podia comprar carro ou casa", lembra.
De acordo com dados da Receita Federal, mais de 30 mil CPFs de menores de idade foram vinculados a CNPJs de empresas entre 2020 e 2024. Não há legislação no Brasil que proíba a participação societária de menores de idade.
Adriana Cardoso Sales de Oliveira, advogada especializada em direito de família e sucessões, afirma que a participação de menores em empresas é uma prática comum em planejamentos sucessórios, quando a divisão societária ocorre ainda em vida.
O problema, segundo ela, surge quando esses negócios acumulam dívidas ou entram em falência, o que acaba vinculando os jovens aos débitos da empresa.
"Nem o Código Civil nem o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) possuem uma regra que proíba essa participação societária. Crianças e adolescentes podem ser utilizados em fraudes, na abertura de contas bancárias, contratação de empréstimos e aquisição de serviços ", explica.
Aos 30 anos, Paloma decidiu processar os pais. A ação buscava reconhecer que sua inclusão na empresa havia ocorrido quando ainda não tinha condições de compreender as consequências jurídicas e financeiras daquela decisão.
Após anos de tramitação, a Justiça reconheceu que ela não deveria ser responsabilizada pelas dívidas e transferiu os débitos para seus pais.
Não é comum que pessoas nessa situação levem o caso à Justiça. Para muitas delas, o vínculo afetivo dificulta até o reconhecimento da experiência vivida como uma violência, afirma a advogada Adriana.
Criadora do Movimento Criança sem Dívida, Renata Furst viveu uma experiência semelhante à de Paloma, mas com início ainda mais precoce. Incluída como sócia de duas empresas aos seis anos, ela começou a receber cartas de cobrança endereçadas ao seu nome aos 12 anos.
Sem compreender o significado das cartas repletas de números, Renata chegou a perguntar aos colegas da escola se eles também as recebiam. Depois de pressionar a mãe, descobriu que seu CPF havia sido vinculado às empresas por uma decisão de um membro da sua família, que prometeu que os negócios garantiriam um futuro próspero para a menina
Tiraram a minha capacidade de ser uma cidadã. Eu pensava: Qual é o sentido de continuar? De estudar, tirar boas notas ou ir para a faculdade, se eu já estava com o nome sujo e tinha oficial de Justiça na minha casa?



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