Série da Folha investiga qual é o Brasil com que sonham eleitoras de diferentes regiões, classes, raças e inclinações políticas

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18.set.2026 às 12h00 Atualizado: 18.set.2026 às 20h03

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Paulo Saldaña Gabriela Biló

Pouca coisa tira o sorriso da empresária mineira Liliane Ávila, 43. Uma delas é ouvir, quase sempre de homens, que é incansável ou guerreira. "Sou guerreira, não. Sou normal. Sou igualzinha a você", costuma responder.

Para ela, a vida seria menos cansativa com divisão mais justa entre homens e mulheres do trabalho doméstico, dos cuidados, das oportunidades de negócios e da participação social e política.

Mãe de dois filhos, Liliane vive em Belo Horizonte e está se separando após 25 anos de casamento. É ela quem comanda a empresa de uniformes e fantasias que sustenta a família e também cuida da mãe idosa. Sem tempo para discussões políticas, não decidiu seu voto para presidente.

Entre amigos, empresários como ela, o apoio a Flávio Bolsonaro (PL) é quase unânime. Em casa, filhos e nora defendem Lula (PT). "Eu queria mesmo uma cara nova", diz. "Alguém que fale a minha língua."

Em outubro, um país polarizado decidirá nas urnas seu rumo sem mulheres entre as candidaturas mais competitivas à Presidência. Elas, porém, são maioria do eleitorado: quase 53%, ou 9 milhões a mais que os homens.

Nas eleições de 2026, elas também estão mais indecisas que os homens. Segundo o Datafolha, 26% ainda não decidiram em quem votar, contra 14% deles —na média, 21% do eleitorado total se diz indeciso. A diretora do instituto, Luciana Chong, diz que mulheres costumam demorar mais para decidir. "São mais cuidadosas, mais atarefadas, e demoram mais para se envolver na discussão eleitoral."

Também são menos influenciadas que os homens por amigos, filhos, líderes religiosos e cônjuges, mostrou o Datafolha de julho.

A Folha percorreu diferentes cidades do Brasil para ouvir mulheres de múltiplas realidades, perfis e inclinações políticas, entender o que pesa em seu voto e conhecer o país que cada uma sonha para si.

Os retratos combinam múltipla exposição e imagens geradas por inteligência artificial a partir das respostas de cada entrevistada sobre seu imaginário de um Brasil melhor. O resultado é como se cada mulher estivesse dentro do próprio sonho.

Nesse exercício, Liliane fala em liderança, num trono de rainha —não de guerreira— e num horizonte de igualdade. Indecisa sobre o voto, ela tem clareza sobre o que importa.

"O que vai me fazer decidir são propostas concretas para mulheres que trabalham. Creches, combate à violência obstétrica e incentivo à empreendedora", explica Liliane.

Mais da metade das casas brasileiras são comandadas por mulheres, que também acumulam a maior parte do trabalho doméstico não remunerado e dos cuidados. Para Bianca Gomes do Prado, 30, falta espaço para essas questões na política.

"A mulher tem que provar que consegue ser uma boa líder, boa mãe, boa dona de casa, boa tudo. Enquanto o homem só precisa ser escutado, entendeu?"

Bianca cria sozinha o filho de 9 anos, na ocupação do Bode, no Recife. Recebe R$ 650 mensais pelo Bolsa Família e faz bicos para complementar a renda. Sonha com uma boa escola e um lugar onde as crianças, entre elas seu filho negro, possam correr com segurança e sem racismo. O cenário que evoca é o da praia de sua infância.