Às vésperas dos 250 anos da independência da nação americana, cresce o debate nacional sobre como a história deve retratar episódios como a escravidão e...
A poucos minutos de caminhada do Independence Hall, na Filadélfia, onde os ideais fundadores dos Estados Unidos foram debatidos e proclamados, outro capítulo da história do país tornou-se foco de uma disputa.
Na Casa do Presidente, antiga residência utilizada pelos presidentes George Washington e John Adams, uma exposição ao ar livre aborda o que o Serviço Nacional de Parques descreve como "o paradoxo entre escravidão e liberdade". A mostra destaca a vida de pessoas escravizadas, entre elas Oney Judge, mulher escravizada por George e Martha Washington que fugiu em 1796 e permaneceu livre apesar das tentativas de recapturá-la.
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Em janeiro, o Serviço Nacional de Parques retirou painéis sobre escravidão do local depois que o presidente Donald Trump assinou, no ano passado, um decreto determinando que agências federais e instituições culturais revisassem programas que, segundo o governo, promovem uma "ideologia divisiva".
Integrantes da administração afirmam que as mudanças restabelecem o equilíbrio em instituições que, segundo eles, davam ênfase excessiva às injustiças da história americana. Já os críticos dizem que a iniciativa restringe o debate sobre escravidão e relações raciais.
A decisão na Filadélfia deu origem a uma disputa judicial. Em fevereiro, um juiz federal ordenou a reinstalação dos painéis. No mês passado, porém, um tribunal federal de apelações decidiu que o governo Trump poderia remover a exposição e substituí-la.
Alan Spears, diretor sênior de recursos culturais da organização sem fins lucrativos National Parks Conservation Association, afirmou que a controvérsia vai além da Filadélfia e levanta dúvidas sobre a capacidade de sítios históricos oferecerem interpretações livres de censura.
"Quando esses painéis são retirados, a história americana é suavizada, higienizada e apagada", afirmou Spears.
À medida que os Estados Unidos celebram os 250 anos de sua independência, o debate sobre inclusão histórica tornou-se parte de uma discussão nacional mais ampla sobre como contar a história do país: como uma celebração dos ideais fundadores e das conquistas nacionais ou como uma reflexão mais complexa que inclua escravidão, expropriação de povos indígenas, imigração, exclusão e a luta de grupos marginalizados pelos direitos prometidos nos documentos fundadores da nação.
Museus, sítios históricos, parques e instituições culturais em todo o país passaram anos preparando eventos destinados a atrair milhões de visitantes durante as comemorações. Mas esses planos acabaram envolvidos em uma disputa mais ampla sobre memória histórica, patriotismo e poder político.
Na Flórida, o Stonewall National Museum Archives and Library, um dos principais arquivos dedicados à história LGBTQIA+ dos Estados Unidos, enfrenta pressões semelhantes.O presidente da instituição, Robert Kesten, afirmou que a perda de recursos pode comprometer os esforços para preservar e divulgar documentos históricos, à medida que empresas e doadores privados se mostram mais cautelosos em apoiar organizações consideradas politicamente controversas.
O museu estima perder entre US$ 70 mil e US$ 90 mil em repasses do governo do condado até o fim do ano. Segundo Kesten, os cortes decorrem da postura de autoridades republicanas da Flórida contrárias à inclusão de pessoas LGBTQ+. "É dinheiro demais para uma organização como a nossa conseguir repor", disse.
A exposição atualmente em cartaz apresenta o barão Friedrich von Steuben, oficial militar prussiano que ajudou a transformar o Exército Continental de George Washington durante a Guerra da Independência. Historiadores debatem sua orientação sexual, mas alguns estudiosos e defensores dos direitos LGBTQ+ o apontam como uma possível figura gay de destaque na fundação dos Estados Unidos.
Kesten afirmou que a história americana foi contada de forma desproporcional a partir da perspectiva de homens brancos, cristãos e heterossexuais. "E, se você é qualquer outra coisa, torna-se descartável."
Historiadores, dirigentes de museus e defensores da preservação cultural disseram à Reuters que a iniciativa do governo federal corre o risco de restringir a diversidade de narrativas que museus e sítios históricos podem apresentar.
O debate ocorre mesmo com museus que oferecem relatos mais abrangentes da história americana continuando entre os mais visitados do país. No ano passado, o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, da Smithsonian Institution, em Washington, recebeu 1,4 milhão de visitantes, enquanto o Museu Nacional do Índio Americano recebeu mais de 620 mil.
A Smithsonian Institution não respondeu a um pedido de comentário sobre eventuais alterações em exposições ou trabalhos curatoriais para atender ao decreto de Trump intitulado "Restaurando a Verdade e a Sanidade à História Americana".
O Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana afirmou que sua programação para os 250 anos da independência "explorará a busca da nação por uma união mais perfeita". "História significa lembrar toda a dimensão do passado, independentemente de isso favorecer ou contrariar um objetivo político", afirmou Ibram X. Kendi, professor de História da Universidade Howard.
Ao mesmo tempo, novas exigências nos editais federais para financiamento de museus dedicados à história e à cultura afro-americanas levaram muitas instituições a desistirem de apresentar projetos, segundo John Dichtl, presidente da Associação Americana de História Estadual e Local, o que pode deixar museus tradicionais em situação financeira incerta.
O Instituto de Serviços para Museus e Bibliotecas, pequena agência federal responsável pela distribuição desses recursos, afirma agora priorizar projetos que "promovam, em todas as gerações, maior valorização... por meio de narrativas positivas e inspiradoras de nossa experiência americana compartilhada".

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