Especialistas explicam como a música pode atuar na dor, ansiedade, memória e bem-estar sem substituir tratamentos
Uma música pode mudar o clima de uma festa, despertar uma lembrança que parecia esquecida ou trazer conforto em um momento difícil.
Essa relação entre som e emoção não acontece apenas pela identificação com uma letra ou melodia.
Estudos sobre intervenções musicais vêm apontando benefícios na redução da percepção da dor, no controle da ansiedade e do estresse e na promoção do bem-estar emocional.
Isso não significa que ouvir uma playlist seja capaz de substituir um tratamento médico ou psicológico.
A música aparece como uma ferramenta complementar, enquanto seus efeitos ajudam a explicar por que determinadas canções conseguem provocar respostas emocionais tão intensas.
Para quem trabalha diretamente com música, essas reações são percebidas diante do público.
O DJ Torrada, que atua há anos em casamentos, festas e eventos corporativos, conta que observar as emoções das pessoas faz parte de seu trabalho.
“Eu costumo dizer que o DJ não toca apenas músicas, ele toca emoções. Depois de muitos anos trabalhando em casamentos, festas e eventos corporativos, aprendi a enxergar o que as pessoas sentem antes mesmo de elas falarem. Uma música pode despertar lembranças, aliviar um coração pesado, fazer alguém sorrir depois de um dia difícil ou unir pessoas que estavam distantes. O DJ observa, sente o ambiente e escolhe a trilha certa para aquele momento. Por isso, de certa forma, somos sim curadores de emoções e de histórias”, afirma.
Um dos episódios que mais marcaram sua carreira aconteceu durante um casamento.
A noiva havia perdido o pai alguns anos antes e existia uma música que os dois costumavam ouvir juntos.
Quando a canção tocou durante a celebração, a reação ultrapassou a pista de dança.
“Quando essa música começou a tocar, ela se emocionou profundamente e abraçou a família inteira. O salão inteiro entrou naquele sentimento junto com ela. No final da festa, ela me disse: ‘Hoje eu senti meu pai aqui’. Aquilo me mostrou que o trabalho de um DJ vai muito além de colocar as pessoas para dançar. A música tem o poder de criar presença, memória e conexão”, relembra.
A capacidade de uma canção transportar alguém para outro momento da vida é uma experiência conhecida por muita gente.
No trabalho de Torrada, ela fica particularmente evidente quando músicas de outras décadas entram no repertório.
“A música me tocou muito antes de eu subir em uma cabine. Ainda adolescente, eu percebia que certas canções conseguiam mudar completamente meu humor e me transportar para momentos específicos da vida. Nos eventos, isso acontece o tempo todo. Às vezes eu coloco uma música dos anos 80, 90 ou 2000 e vejo pessoas se abraçando, cantando juntas, lembrando da adolescência, de amigos, de amores e de fases importantes da vida. É impressionante como uma única música consegue abrir uma porta para memórias que estavam guardadas há anos”, conta.
Há mecanismos cerebrais envolvidos nessa experiência.
De acordo com o médico e psicanalista Dr. Pedro Onari, presidente do Instituto Onari, ouvir música mobiliza diferentes áreas do cérebro ao mesmo tempo.
“A música age no cérebro de uma forma muito profunda porque ela não é processada apenas como som. Quando ouvimos uma música, o cérebro ativa áreas auditivas, emocionais, motoras, cognitivas e de memória ao mesmo tempo. Por isso, uma música pode nos fazer lembrar de uma pessoa, de uma fase da vida, de uma dor antiga ou até de um momento de grande alegria”, explica.
Segundo o especialista, a experiência musical também envolve regiões relacionadas ao prazer e à recompensa, favorecendo a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de bem-estar.
Áreas relacionadas às emoções e às memórias, como a amígdala e o hipocampo, também participam desse processo.




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