Batata, cenoura e tomate dobraram de preço desde o início do ano. A cebola ficou 64% mais cara. O feijão-carioca, 51%. A comida que se leva para casa aumentou em média 5,9% até junho, na medida do IPCA-15, do IBGE. Leia mais (06/25/2026 - 15h55)

Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA)

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25.jun.2026 às 15h55

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Batata, cenoura e tomate dobraram de preço desde o início do ano. A cebola ficou 64% mais cara. O feijão-carioca, 51%. A comida que se leva para casa aumentou em média 5,9% até junho, na medida do IPCA-15, do IBGE.

Em 12 meses, a inflação da comida está em 3,4%. Entre novembro de 2024 e maio de 2025, ficara perto de 8% ao ano, o que ajudou a derrubar a popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva.

O aumento, pois, não é disseminado, embora seja carestia horrível de produtos de uso corriqueiro. Em abril de 2013, o tomate caríssimo virou meme, mas era símbolo de inflação de alimentos alta, de quase 16% ao ano, um tempero das tantas insatisfações com Dilma Rousseff.

Comida mais cara não parece ainda problema eleitoral novo. É parte de problema econômico renovado, taxas de juros muito altas por mais tempo. Quão mais altas e por quanto tempo são motivos de discussão, acalorada por confusão que o Banco Central criou na semana passada, quando comunicou que cortara a Selic para 14,25%. Mas estamos falando aqui de país encalacrado com juro muito alto até fins de 2027, alto até fins de 2028. Não vai prestar.

O BC não pode fazer nada quanto a chuvas e calores que prejudicaram safras daqueles alimentos. No máximo, pode evitar que choques mais amplos de preços (de comida em geral ou energia, por exemplo) se espalhem pela economia.

Na prática, o BC tenta evitar que a inflação esteja longe da meta daqui a uns 18 meses, o "horizonte relevante", momento em que a política monetária (de juros) deve estar fazendo seu maior efeito. Por ora, esse horizonte é fins de 2027, quando o IPCA estaria ainda em 3,7%.

Na semana passada, o BC passou a impressão de que seria mais mole nos juros porque a inflação iria para perto da meta de 3% ao longo de 2028, o que ajudou a elevar mais um pouco juros para vários prazos.

Depois da publicação da exposição de motivos do BC ("ata do Copom"), na terça (23), e do Relatório de Política Monetária, nesta quinta (25), um pouco da confusão se dissipou, embora o BC deva levar uns dois ou três meses para assentar a poeira.

Em resumo extremo, parece que o BC queria dizer que: 1) a alta da inflação deve ser passageira, sendo atenuada ao longo de 2027; 2) pelos cálculos do BC, o IPCA baixaria a 3,2% no início de 2028, levando em conta a Selic projetada por economistas de "o mercado" na semana retrasada (13,75% no final de 2026, 12% no final de 2027); 3) Selic mais alta (ou, supõe-se, a 14% no final deste ano) para atingir a meta ainda em 2027 poderia causar algum tumulto financeiro e queda excessiva da atividade econômica; não valeria a pena.

O BC diz que depende ainda mais de dados para saber se corta a Selic em agosto. Diz que há mais riscos de inflação alta: governo gastando e dando crédito barato, PIB crescendo além da conta, El Niño, expectativas crescentes de inflação.

Difícil que a Selic caia abaixo de 14% no final deste ano. Para outros prazos, a situação dependerá do programa econômico do próximo governo. Quanto a preços, a inflação anual ainda deve ficar perto de 4% até o final de 2027. O calor do nível de preços ("as coisas estão caras") não vai ter refresco, até porque os salários devem crescer algo mais devagar.