Matéria exclusiva para assinantes. Para ter acesso completo, acesse o link da matéria e faça o seu cadastro.
A psicóloga infantil Ana recebe o misterioso telefonema de um homem em desespero, insistindo em marcar uma consulta naquele mesmo instante. Quando chega, pouco revela sobre si mesmo, pedindo que o chamem apenas de D. Perguntado sobre sua profissão, diz ser “uma espécie de artista”. Ao se deitar no divã, contudo, descreve os sintomas de uma depressão. Mas o mal já dura 2 mil anos.
Logo Ana descobre estar diante simplesmente de Deus, que vem desabafar sobre seu maior problema, a humanidade, responsável por um sentimento tão doloroso e profundo que ele até pensou em suicídio, mas recuou porque significaria a destruição de todo o universo.
“Esse Deus, na verdade, não se parece com o todo-poderoso, pois surge como um homem fragilizado, adoecido”, conta o ator Sérgio Guizé que interpreta o Criador em “Meu Deus!”, peça que inicia temporada no Teatro das Artes, em São Paulo, a partir de 24 de julho.
Escrito pela israelense Anat Gov (1953-2012), o espetáculo acumula sucesso mundial desde sua estreia, em 2008, justamente por sua simplicidade. No Brasil, já ganhou uma versão com Irene Ravache e Dan Stulbach em 2014. “O êxito é fruto da forma direta com que a peça fala sobre nossa fragilidade e sobre a necessidade de continuar acreditando”, diz Bianca Bin, que faz Ana. “Ela não traz respostas prontas.”
Para ela, a terapeuta representa o ser humano contemporâneo. “É mãe solo, cansada, ferida, emocionalmente exausta. Uma mulher que, como tantas, carrega o mundo nas mãos, mas continua vivendo, tentando. Para mim, ela é o símbolo perfeito da resistência humana”, afirma. Depois de relutar, Ana termina por se render e segue ao lado de Deus na jornada de autoconhecimento.
A trama da peça é bem alicerçada graças aos seus detalhes. Abandonada pelo marido depois do nascimento do filho autista (Enzo Morente), a terapeuta é também uma mulher descrente. “Logo no início do espetáculo, ela questiona o paciente: ‘Como você quer que eu acredite que Deus existe? Olha a minha vida, o que eu enfrento, as crises do meu filho. Como você quer que eu acredite na sua existência?’”, diz Bin.
“E ele responde: ‘Vocês me culpam de tudo, mas a responsabilidade é de vocês também’”, completa Guizé, que compara o sofrimento de seu personagem com a angústia de um homem que também se desiludiu com a humanidade. “Ele sofre o mesmo dilema de Santos Dumont durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), conflito que utilizou aviões para matar. Isso o levou a uma grande depressão que colaborou para o seu total declínio até a morte trágica.”
A finitude, aliás, ronda o texto desde a sua concepção. Autora que fez carreira com comédias populares em Tel Aviv, Anat Gov travou longa luta contra um câncer, que provocou sua morte quatro dias antes de seu 59º aniversário. O ceticismo marcou sua dramaturgia, especialmente ‘Meu Deus!’ e sua teoria de que a crise de Deus é a mesma do homem contemporâneo. Passada a surpresa inicial do encontro inusitado, o público se reconhece em muitas das dúvidas e das questões dele.
“Falar desse tema é urgente porque mostra que, quando todos se sentem deuses — donos da verdade, juízes da vida alheia, criadores de suas próprias regras —, corremos o risco de perder a humildade, a escuta, a compaixão”, afirma o encenador Elias Andreato, diretor da montagem de 2014 e também da atual. “As redes sociais amplificam essa sensação: cada opinião parece absoluta, cada gesto ganha dimensão divina, cada indivíduo acredita ter o poder de decidir o certo e o errado.”
Durante essa sessão de terapia, a plateia acompanha como o encontro entre os dois atravessa diversos momentos. De desconfiança, rejeição, compreensão e reconhecimento.
Para evitar falar de religião ou mesmo usar um tom didático, a dramaturga se valeu do melhor do humor judaico, especialmente o jogo de palavras, a ironia e a sátira. No início, ao chegar para a consulta, Deus primeiro negocia o preço da sessão antes de começar a falar. “Você não é a primeira pessoa com esse tipo de ... de ... problema”, ela arrisca dizer. “Isso é muito comum hoje em dia… muita pressão. Todo mundo quer se dar bem…”
Quando descobre estar diante do todo-poderoso, Ana inicialmente pensa em recusar o atendimento. “É porque ele não tem mãe, que, na terapia, é sempre responsabilizada pelos problemas dos filhos”, diverte-se Bianca Bin, cuja personagem não perde a chance de ironizar as carências desse “senhor supremo”, lembrando com acidez das injustiças que ele cometeu ao longo dos tempos, especialmente os horrores descritos no Velho Testamento.
E, sobre a descendência, ao longo da conversa, Deus confessa que tentou melhorar o mundo ao mandar para cá “um rapaz” que não teve muita sorte em 33 anos de vida. “O desafio é encontrar o humor na dor e na verdade, sem ceder à tentação da piada fácil. O trunfo está em construir um personagem vulnerável com o qual o público consiga se identificar, e não apenas rir dele”, afirma Guizé.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário