Autora das Ilhas Maurício apresenta seu premiado 'Noite no Coração' na Flip

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23.jul.2026 às 4h00 Atualizado: 4.ago.2026 às 15h28

Anna Virginia Balloussier

Preço R$ 89 (240 págs.); R$ 66 (ebook) Autoria Natacha Appanah Editora Bazar do Tempo Tradução Mariana Delfini

Nathacha Appanah pensa com frequência em Alana Rosa, a jovem de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, que sobreviveu a uma tentativa de feminicídio após rejeitar um pedido de namoro.

"Ela foi esfaqueada dezenas de vezes e compareceu ao julgamento [do algoz] de cabeça erguida. Que exemplo para todas nós", diz a escritora, que nasceu nas Ilhas Maurício e vive na França.

Appanah diz precisar confessar uma coisa. "Eu me senti humilhada pelos muitos encontros que tive desde que o livro foi lançado."

Refere-se a "Noite no Coração", vitorioso em premiações francesas de relevo, como Femina e Goncourt des Lycéens, e publicado no Brasil agora pela Bazar do Tempo. É sobre ele que Appanah falará nesta sexta-feira (24), em mesa da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, ao lado da brasileira Bethânia Pires Amaro.

O que impressionou a autora, que também é jornalista, foram as reações "daquelas que chamamos de vítimas ou sobreviventes" e que "são as pessoas mais fortes que já conheci". Para escrever seu novo livro, conheceu mulheres que compartilharam suas histórias de violência doméstica da maneira mais digna possível, diz em entrevista.

"Elas não choraram, não desabaram. Escolheram suas palavras com cuidado, lindamente, eu diria. Olharam-me nos olhos. Por isso, eu gostaria de inventar outra palavra que não seja ‘vítima’, uma palavra que diga fé, poder e resiliência." Ainda não identificou que termo seria esse. "Mas algum dia encontrarei."

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O que fez foi usar a literatura para falar publicamente, de forma inédita, do relacionamento abusivo que viveu dos 17 aos 25 anos com um homem três décadas mais velho e que, segundo ela, quase virou seu assassino.

Da primeira vez, após ser provocado por rapazes que o achavam velho demais para a jovem companheira, apertou o pescoço dela, com sua mão "seca e quente, grande e grossa".

Depois, acuada em casa, Appanah deu gritos pavorosos que a fizeram parecer um animal, "nem sequer um animal majestoso, não, um porco, uma cabra velha, um asno". Fugiu para a rua. Ele então a perseguiu de carro, intimidando-a com os faróis. Ela entrou no veículo, onde recebeu golpes na cabeça.

Em "Noite no Coração", a autora tensiona a própria literatura para dar conta da própria história e de dois feminicídios: o de Chahinez Daoud, assassinada pelo ex-marido na França em 2021, e o de sua prima Emma, morta pelo companheiro em 2000.

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Para devolver o protagonismo a essas mulheres, a escritora precisou romper o distanciamento com o próprio passado. Não que o tenha esquecido, mas nunca achou que escreveria sobre ele. Algo mudou ao escutar no rádio sobre a morte de Chahinez, imigrante argelina descrita como uma mulher de risada contagiante, generosa, vaidosa (gostava de batom vermelho) e excelente cozinheira.