O governo Lula acirrou crise com os EUA ao negar vistos de entrada no país a dois altos funcionários do Departamento de Estado americano

Trump x LulaNegativa de vistos abre novo capítulo de tensão entre Brasil e EUAPor Isabella de Paula

Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleVeto à entrada de funcionários do Departamento de Estado dos EUA no Brasil amplia atritos entre países (Foto: EFE/ Andre Borges/Octavio Guzmán)Ouça este conteúdo

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acirrou a crise com os EUA ao negar vistos de entrada no Brasil a dois altos funcionários do Departamento de Estado americano, que pretendiam se reunir com autoridades nacionais e verificar a integridade do sistema eleitoral brasileiro. Para a gestão petista, a visita teria como finalidade interferir na votação de outubro.

O novo ponto de atrito entre os países surge dias depois do novo tarifaço imposto pela Casa Branca e do governo acionar a Organização Mundial do Comércio (OMC) em protesto às novas cobranças.

Uma primeira reação aos recentes episódios, por parte dos americanos, veio nesta terça-feira (28) com a extensão da emergência nacional que o presidente Donald Trump havia decretado em 2025 em relação ao Brasil. Naquela ocasião, o republicano impôs uma sobretaxa de 40% sobre importações brasileiras, que, somada aos 10% da tarifa global do Dia da Libertação, resultou num tarifaço de 50%. A extensão da emergência nacional, porém, não implica o retorno dessas tarifas, que foram derrubadas pela Suprema Corte dos EUA.

Quando anunciou o primeiro tarifaço, Trump endereçou uma carta a Lula justificando a medida com base em uma relação comercial injusta e na postura do STF em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que na ocasião ainda não havia sido condenado pela suposta tentativa de golpe.

Para Ludmila Culpi, doutora em Ciência Política e professora de Relações Internacionais e Negócios Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a negativa de visto a funcionários dos EUA sinaliza uma mudança de postura do Brasil na condução de sua resposta política e diplomática.

Ela pontua que, antes, o Brasil respondia apenas com notas e declarações e agora adotou uma postura mais firme como instrumento concreto para impedir que a disputa se transferisse para o território nacional antes da eleição. Na visão de Culpi, isso tende a ser lido em Washington como uma resposta mais dura do que as anteriores.

A analista prevê maior pressão por parte do governo Trump, uma vez que existem suspeitas de “risco de instrumentalização política" a menos de três meses da eleição. Ela destaca que o histórico entre os países, até o momento, sinaliza que as próximas ações podem ser ainda mais prejudiciais para a economia brasileira.

"A expectativa é de que o governo americano assuma uma retórica dura, com possível ampliação de sanções individuais (como a Global Magnitsky e negativa de vistos a autoridades brasileiras) mais do que uma nova rodada tarifária iminente, uma vez que a tarifa geralmente tem processo mais lento e já foi usada", avalia.

Ricardo Caichiolo, professor de Relações Internacionais e diretor do Ibmec Brasília, afirma que a negativa de vistos marca mais um capítulo na relação tensa entre os governos de Lula e Trump. Em análise à Gazeta do Povo, ele destaca que o episódio, interpretado por Brasília como tentativa de ingerência nas eleições de outubro, reforça um padrão de retaliações recíprocas, o que eventualmente pode levar à adoção de novas tarifas ou sanções pontuais.

No último sábado (25), o jornal The Washington Post informou que o governo brasileiro barrou a entrada de dois altos funcionários do Departamento de Estado dos EUA, que viriam ao país com a missão de verificar a integridade do sistema eleitoral brasileiro.

A delegação norte-americana seria composta por Riley M. Barnes, subsecretário para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL) do Departamento de Estado americano, e Samuel Samson, subsecretário Adjunto do Departamento de Estado, ambos indicados políticos da administração de Donald Trump.

De acordo com a publicação americana, a Casa Branca planejava enviar a delegação ao país com o objetivo de se reunir com autoridades eleitorais brasileiras e discutir assuntos relacionados às eleições presidenciais de outubro, entre eles a integridade e a transparência do sistema eleitoral.

O jornal The New York Times afirmou que o Brasil vetou a viagem da delegação dos EUA por temer que eles planejassem semear dúvidas sobre a segurança do sistema eleitoral do país, meses antes das eleições.

“Quem de fora quiser se meter nas eleições brasileiras vai apanhar muito aqui nas eleições. Quem vai decidir o destino desse país são 157 milhões de eleitores”, declarou o petista no final de semana, numa mensagem que foi vista como uma referência ao veto à missão norte-americana que viria ao país.

Apesar do encontro entre Lula e Trump em maio ter sinalizado uma melhora na relação entre os países, as novas ações dos governos atestam uma realidade contrária na qual, cada vez mais, Brasil e EUA se distanciam diplomaticamente.

Desde que retornou ao poder, o presidente republicano tem pressionado o Brasil por meio de sua política externa. Além de atingir a economia brasileira, os EUA também miram o país na esfera judicial.

Um dos exemplos é o processo aberto na Justiça da Flórida contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes por decisões judiciais consideradas ilegais contra empresas e cidadãos americanos. Outro foi a imposição de sanções com base na Lei Magnitsky, que posteriormente foi derrubada após uma tentativa de aproximação entre Washington e Brasília.

O governo americano, por meio do Departamento de Estado, também revogou vistos de autoridades brasileiras após a condenação de Jair Bolsonaro. Entre os nomes estão membros do governo Lula, como o advogado-geral da União, Jorge Messias, e membros atuais e aposentados do STF como Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Dias Toffoli e outros. A medida também atingiu familiares dos magistrados.