Novas ferramentas prometem transformar o cuidado, mas ainda existe o risco de deixar justamente os mais vulneráveis para trás
Inteligência artificial ajudando médicos a tomar decisões, consultas à distância, dispositivos capazes de monitorar sinais de saúde em tempo real: tudo isso já faz parte da transformação da saúde por meio da tecnologia. Mas tem uma questão fundamental: se nem todos conseguem acessar esses avanços, eles também podem criar novas desigualdades nessa área.
Uma pessoa que vive longe de um grande centro pode ter acesso a um especialista, hoje, por meio da telessaúde. Um dispositivo pode ajudar a acompanhar a saúde de um paciente em casa, enquanto a inteligência artificial é capaz de ampliar a capacidade de profissionais e sistemas de saúde. Mas quem consegue, de fato, acessar e usar essas ferramentas?
E se aqueles já menos favorecidos ficarem de fora deste novo mundo com tecnologias e soluções inovadoras? Isso é o que chamamos de exclusão digital e vai muito além de ter ou não ter internet. Existe a barreira da infraestrutura, como a falta de uma conexão adequada. Há a questão do letramento digital, ou seja, não basta apenas ter uma tecnologia: é preciso saber usá-la, entender uma informação e ter confiança para incorporar tudo isso à própria rotina.
Outro ponto decisivo é que a tecnologia precisa ser pensada para diferentes contextos. Afinal, uma solução pode ser tecnicamente excelente, mas não cumprir o seu papel se for difícil de usar, inacessível para uma pessoa com deficiência ou incompatível com a realidade de quem deveria se beneficiar dela.
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Por isso, quando falamos sobre o futuro da saúde, não deveríamos apenas perguntar sobre o que a tecnologia é capaz de fazer. Precisamos questionar também: para quem essa tecnologia funciona?
A inovação em saúde só cumpre todo o seu potencial quando consegue ampliar o acesso ao cuidado – e não criar uma nova camada de desigualdade. O desafio, portanto, não é apenas construir a saúde do futuro. É garantir que esse futuro seja possível e acessível para todos.
VP Médico e de Relações Institucionais da Afya, fundador da CIS - Comunidade Inovação em Saúde e apresentador do ExpertCast
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