Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais, defende que Netanyahu e Trump sofreram uma derrota política, porque não atingiram nenhum dos objetivos estratégicos traçados contra o Irão

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Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais, é o nosso convidado para o Gabinete de Guerra desta manhã. Muito bom dia, Miguel. Bem-vindo, obrigado pela disponibilidade.

Miguel, vamos olhar para estas duas reuniões com Zelensky e Netanyahu, hoje na Casa Branca. É um dia agitado para o presidente dos Estados Unidos, que tem na sua sala os dois conflitos mais mediáticos a nível mundial. Vamos começar por este encontro com Zelensky, que antes de chegar aos Estados Unidos esteve com o novo primeiro-ministro inglês. Falou-se também nas últimas horas do interesse da Ucrânia num protótipo de sistema europeu de defesa de mísseis. Isto porque Kiev tem, de alguma forma, se queixado do sistema de defesa aérea Patriot, que não tem chegado nas quantidades que Kiev desejaria. Quais achas que serão os assuntos em destaque nesta reunião de Zelensky com Donald Trump? Também se fala num possível documento de cessar-fogo aéreo com a Rússia, que Petrov já veio dizer que não está muito para lá virado. Serão estes os assuntos, a defesa militar de Kiev e a possibilidade de um cessar-fogo na Ucrânia?

Bom dia também aos nossos ouvintes. Há dois outros tópicos que são importantes nesta reunião. Efetivamente, esta questão da passagem de tecnologia, depois daquilo que foi a reunião da NATO, em que Donald Trump disse que estaria disposto a autorizar que a Ucrânia tivesse a licença para o fabrico dos Patriots, que é efetivamente uma desvantagem enorme que a Ucrânia tem e a própria Europa também tem, em termos de intercetores, é um ponto essencial. É um ponto essencial nesta conversa porque a Ucrânia quer mesmo ter acesso a essa licença e começar a fabricar os Patriots. Até porque entre ter a licença e começar a fabricar, ou ter capacidade de se fabricar, começar a fabricar e os ter disponíveis para utilização, vai um hiato temporal enorme. E, portanto, quer continuar nesta conversa porque não quer que a conversa tenha sido só uma certa retórica, uma construção de narrativa que Donald Trump também já nos habituou, porque percebeu-se que dá de uma certa maneira. Há aqui um crescendo de capacidade militar da Ucrânia de responder ou de pelo menos conter o avanço russo. E, neste momento, a Rússia, por diversas razões, sejam elas militares e econômicas, parece que a Ucrânia está num momento diferente. Ou seja, a Rússia não está naquele momento que estava há um ano atrás na reunião do Alasca e, portanto, Zelensky quer continuar a ganhar espaço nesse ponto, aproximando-se do presidente americano e tentando manter o presidente americano a olhar para a Ucrânia como a possível, não vencedora da guerra, não diria isso, mas que neste momento está por cima da situação. E vai tentar falar com o presidente norte-americano noutro ponto que é essencial, que é esta questão do cessar-fogo aéreo interessa sobremaneira também à Rússia e também à Ucrânia. Porque é o seguinte: sim, é verdade que a Ucrânia está a ter imensa capacidade de fazer a chamada guerra em profundidade e esta guerra em profundidade está a criar um problema sério à Rússia, nomeadamente na questão econômica. E, portanto, se olharmos de uma forma muito séria, até parece que a Rússia está mais interessada. Mas, ao mesmo tempo, sabendo que a Ucrânia tem menos capacidade dos chamados intercetores, porque não tem então os sistemas Patriots e não tem outro sistema, porque o próprio sistema de defesa europeu não é relevante em termos de capacidade. Também nos parece que a Ucrânia, neste momento, tem essa vontade de que haja pelo menos aqui um cessar-fogo aéreo relativo àquilo que é a chamada guerra em profundidade. E, portanto, esta reunião é importante. Da parte de Donald Trump, por que esta reunião também é importante? Porque Donald Trump quer voltar a ganhar aquilo que se chama relevância nesta guerra. E que tu vais te lembrar que ele teve um momento em que tinha uma relevância muito importante. Falou-se de várias possibilidades de um cessar-fogo. Houve imensas reuniões com o Steve Witkoff, reuniões quer em Moscovo, quer em Kiev, e acabámos por não chegar absolutamente a lado nenhum, muito menos a qualquer tipo de memorando de entendimento.

Miguel, olhemos um bocadinho também para a visita de Benjamin Netanyahu, que ocorre aqui numa altura em que parece haver alguns sinais de um momento menos bom na relação entre Donald Trump e Netanyahu. Ainda assim, este momento pode ser um reaproximar destas relações. A questão do Líbano é também importante, porque há ao que parece uma nova reunião agendada entre responsáveis israelitas e libaneses para os próximos dias. São muitos os assuntos que terá para conversar com Netanyahu também neste encontro de hoje na Casa Branca.

Sim, e repara o seguinte: o primeiro tópico desta reunião e por parte de Netanyahu será efetivamente dizer a Donald Trump que, afinal, depois destes meses todos, nenhum dos objetivos que os dois tinham traçado no princípio deste conflito, lá em janeiro, foi atingido. Nós não temos ainda um acordo na questão nuclear, não foi possível que o regime no Irão caísse, não foi possível terminar com o programa de mísseis balísticos e efetivamente não se consegue controlar os proxies. Portanto E agora temos outro problema, que é o Estreito de Ormuz e o Estreito de Bab-el-Mandeb. Todos estes pontos que eram essenciais ou que eram objetivos dos Estados Unidos e objetivos de Israel, nenhum foi atingido. Por outro lado, temos eleições em outubro em que, neste momento, Netanyahu está muito atrás do primeiro colocado e se, vamos imaginar, nós tivéssemos eleições agora com este resultado, Netanyahu não conseguiria formar governo, estaria fora do governo. E portanto, os dois vão sentar à mesa e vão efetivamente discutir estes pontos, que é: "Bom, nenhum dos pontos nós conseguimos atingir". Netanyahu vai tentar convencer Donald Trump que este não é o momento de fazer a pausa, de que este é efetivamente o momento, havendo capacidade militar. Porque o outro ponto bizarro aqui também é este, que é: nós tivemos 14 noites de atividade em que nós tivemos uma quantidade de bombardeamentos estratégicos, mas nós efetivamente não entendemos o porquê destes bombardeamentos estratégicos quando duas coisas não aconteceram, que é não se chegou mais próximo de voltar ao memorando de entendimentos, nem a um processo de paz, nem a um processo de acordo, e foram 14 noites em que efetivamente os Estados Unidos terão gasto novamente uma grande quantidade de mísseis. E entretanto, são os próprios comandantes dos vários ramos das Forças Armadas que dizem ao presidente que se ele continuar nesta deriva, seria perigoso também para os Estados Unidos na sua própria defesa. Netanyahu vai tentar convencer o presidente norte-americano a fazer um último forcing, um último esforço, na tentativa efetivamente de criar uma disrupção grande no Irão. Porque se olharmos para tudo o que está na mesa, e eu acho que Netanyahu vai falar muito disto para Donald Trump, que é o seguinte: se nós olharmos para tudo o que aconteceu neste extremo até agora, então nós dois temos aqui uma grande derrota, que é apesar de termos maior capacidade militar, nós não conseguimos impor pela força, que era isto que Netanyahu acreditava que poderia acontecer, na região, e imediatamente no Irão, nós acabamos por não conseguir ter essa vitória política. E este é um problema sério, quer para Netanyahu, mas também quer para o próprio presidente dos Estados Unidos, que vê o seu próprio Senado a negar-lhe um aumento de capacidade financeira pra continuar a guerra. E, portanto, Netanyahu terá nesta reunião uma última oportunidade, antes das eleições em Israel, de convencer ou de voltar a convencer o presidente dos Estados Unidos de que existe, neste momento, uma última janela de oportunidade para os dois tentarem fazer alguma coisa para controlar não só o Irão, mas para controlar outro ponto importante, e com isto termino. A ideia que está a ser posta em prática pela Turquia, pelo Egito, pela Arábia Saudita e pelo Paquistão, que se começaram a reunir a partir de 19 de março com a ideia de que podem criar também naquela região uma associação, uma NATO local, e que estes países juntos teriam capacidade militar de intervir em conflitos regionais, de alguma forma, põe em segundo plano esta ideia de que Netanyahu continua a ser defensor de efetivamente os Estados Unidos com Israel serem hegemonia militar naquela região. E portanto, Netanyahu terá uma conversa muito franca com o presidente dos Estados Unidos, que é que se não me ajudares neste momento, pode acontecer que em outubro eu já não esteja cá.

Surja uma nova hegemonia. Sim. Miguel Baumgartner, muito obrigado pelos seus esclarecimentos neste Gabinete de Guerra. São duas reuniões importantes hoje na Casa Branca, que seguramente vamos analisar também amanhã em nova edição do Gabinete de Guerra. Um abraço, Miguel. Obrigado.

Um abraço. Obrigado.