Moisés Mendes analisa o isolamento de Flávio Bolsonaro entre nomes da direita e os desafios para uma possível disputa eleitoral.

No comício fracassado de domingo em Copacabana, uma das primeiras falas de Flávio Bolsonaro foi a apresentação de desculpas para a ausência de público e de líderes da extrema direita no lançamento da campanha a presidente: “Vocês já perceberam, está todo mundo contra mim”.

Não estão necessariamente contra, mas há distanciados e indiferentes, tem gente se fingindo de morta e a maioria sente medo de chegar perto dele e sair na foto. A velha direita, dentro ou fora do centrão, se escondeu. Gente que sempre esteve com o pai não está com o filho.

Gilberto Kassab disse que Lula vencerá a eleição, porque Flávio “tem chance zero”. Caiado depreciou Flávio e afirmou que ele “construiu a carreira em cima da certidão de nascimento”. Zema se perguntou: “Teria como eu aplaudir alguém que se aproxima do maior banqueiro bandido do Brasil?”

Renan Santos o definiu como “um farsante, de uma família de farsantes que enganou o Brasil”. E todos eles, Caiado, Zema e Santos, já foram bolsonaristas, porque houve um tempo em que era bom estar ao lado de Bolsonaro.

Hoje, todos tentam ficar com fatias do eleitorado que Bolsonaro procura passar a Flávio e por isso atacam o filho do pai que eles apoiaram. Os três apostaram que Flávio não teria condições de representar um eleitor que é anti-Lula, e não necessariamente bolsonarista. Mas nenhum deles se beneficia dessa suspeita.

Como esses três vão se comportar no segundo turno, se todos fingem se afastar do bolsonarismo para tentar herdar o eleitor bolsonarista que poderia deixar de ser fiel à família e se agarrar a outro nome ‘novo’ e disruptivo, como aconteceu na Argentina, no Equador e na Colômbia?

Caiado, Zema e Santos somam 10% do eleitorado no primeiro turno, segundo a mais recente pesquisa Quaest. Caiado e Santos têm 4% cada um, e Zema fica com 2%. No primeiro turno, ainda segundo a Quaest, Lula tem 38% das intenções de voto e Flávio tem 31%.

No segundo turno, Lula tem 43% e Flávio está com 40%. Numa conta rasa, conclui-se que a maioria, mas não a totalidade dos votos dos três, é transferida para Flávio, mesmo com outras nuances matemáticas envolvidas.

Os eleitores de Caiado, Zema e Santos optam naturalmente por Flávio e não por Lula. Mas os três abririam o voto para Flávio no segundo turno? Fariam declarações protocolares? Participariam ativamente da campanha, se percebessem que o filho ungido tem chances de vitória?

Se decidirem se engajar, dependendo das circunstâncias, a dúvida é que efeito isso teria nas decisões do eleitor no confronto final com Lula, considerando-se que a maioria dos líderes da velha direita não quer nada com Flávio.

O segundo turno poderia alterar as feições da rejeição e até fazer com que os três revisassem o que disseram para apontar Flávio como um candidato fraco? Como seriam curadas as feridas dos ataques sistemáticos dos três a Flávio?

A queixa de Flávio de que todos estão contra ele é legítima, mas não surpreende aliados políticos e a grande imprensa desorientada, que sempre o consideraram um nome incapaz de passar confiança ao eleitor como adversário de Lula.

Flávio fracassou na aglomeração em Copacabana, onde apareceram 9 mil pessoas, muitas das quais contadas ao acaso pelos drones porque passeavam com seus cães na praia, e não conseguiu provar que pelo menos faz motociatas de sucesso, como seu pai fazia. O passeio de moto com apoiadores em Juiz de Fora, na segunda-feira, foi suspenso por causa da chuva. Mas andar de jet-ski em Porto Belo independe de tempo ruim.

O candidato precisa escapar da tentação do marketing da vítima e do coitadismo, porque todos estariam contra ele. Pablo Marçal não está. Marçal diz ter registrado sua candidatura a presidente pelo PRTB para salvar Flávio, como uma espécie de enviado dos deuses. Só Marçal tem pena de Flávio Bolsonaro, o arrogante que esnobou até a madrasta e agora se sente abandonado.

Quem já seguiu o mago da prosperidade Pablo Marçal em aventura transformadora ao Pico dos Marins, no meio de uma tempestade, sabe o que essa salvação significa. Chame os bombeiros, Flávio Bolsonaro.