A breve antologia religião e futebol que ocupará esta coluna no período da Copa aterrissa agora no território mexicano. Naquele país, uma das sedes deste mundial, uma imagem do menino Jesus se transformou no elemento central de uma disputa que tem mobilizado fiéis, torcedores e o clero local. Leia mais (06/23/2026 - 07h00)
Professor de antropologia da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências
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A breve antologia religião e futebol que ocupará esta coluna no período da Copa aterrissa agora no território mexicano. Naquele país, uma das sedes deste mundial, uma imagem do menino Jesus se transformou no elemento central de uma disputa que tem mobilizado fiéis, torcedores e o clero local.
Ao que tudo indica, a história começou na década de 1960, quando torcedores começaram não somente a pedir aos santos que ajudassem seus clubes a serem campeões como foram além. Passaram a vestir um menino Jesus com uniformes de seus times.
Teria sido em 1970, justamente durante o mundial também sediado pelo México, que a prática ganhou ainda mais popularidade. Na ocasião, uma imagem específica —o Santo Niño de Atocha, venerado na igreja de San Gabriel Arcángel, no bairro de Tacuba— foi vestida com calção, meiões e a camisa número 12 da seleção mexicana. A partir de então a igreja se tornou ponto de encontro dos torcedores devotos e passou a lotar a cada Copa.
A prática de vestir santos é relativamente comum na América Latina e se repete em diferentes países. Em Cusco, no Peru, todos os anos troca-se a roupa do chamado Niño Manuelito. A imagem é a de um menino Jesus passado de geração em geração. Todos os anos, nas semanas próximas ao Natal, as famílias devotas confeccionam novas roupas e vestem suas imagens com novos estilos, tecidos, chapéus e cores. O guarda-roupa do santo vai assim se renovando. Uma vez vestido com as novas roupas, a tradição é levar o santo para a igreja e exibi-lo durante nove missas.
O Santo Niño de Atocha, que veste a camisa 12 da seleção mexicana, se inscreve neste mesmo tipo de tradição latina. Ocorre que agora, justamente no período dos preparativos para o início da Copa do Mundo, o padre da igreja decidiu se opor à tradição. Proibiu que o Menino Jesus fosse vestido de torcedor da seleção e assumiu uma postura mais ortodoxa, condenando quem trocasse suas roupas.
O México é um país fortemente católico. Segundo dados recentes, mais de 77% da população se declara como tal. Por lá, as marcas das formas populares de devoção estão espalhadas por todos os lados. Não são incomuns santos oficiosos levarem enormes multidões às ruas e ocuparem os altares domésticos. Este é o caso, por exemplo, de Juan Soldado, um santo de devoção popular, oriundo de Tijuana, cujo culto é objeto daqueles que precisam resolver problemas com a imigração. Em seus altares, é comum que se vejam cópias de green card, assim como também é usual que os católicos que atravessam a fronteira ilegalmente carreguem uma imagem dele consigo.
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Nesse ambiente de religião popular tão profusa, poucas coisas são menos eficientes do que tentar proibir a devoção. E foi isso o que também aconteceu com o Menino Jesus vestido com a camisa da seleção. Os católicos não somente reagiram imediatamente como essa reação chamou mais atenção do que a própria proibição, contribuindo para a difusão da prática.
Ao invés de perder espaço, o destino do menino Jesus boleiro foi ainda mais auspicioso. Saiu da periferia da cidade e ganhou novos altares.
Desde a semana passada ele passou a ocupar nada menos do que o altar central da Catedral Metropolitana da Cidade do México, que é uma das principais do país e centro administrativo eclesiástico da capital.


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