Com apoio de líderes de direita aliados, esforços dos EUA na região são marcados por aumento da militarização e retórica que equipara traficantes a terro...

Quando, em junho de 1971, o então presidente americano Richard Nixon (1969-1974) declarou uma "guerra às drogas", ele estava dando início a mais de cinco décadas de envolvimento dos Estados Unidos em ações dentro e fora do país para "combater e derrotar" o que descreveu como "inimigo público número um".

Na América Latina, os esforços dos EUA contra o narcotráfico e os cartéis passaram por várias fases ao longo desses anos, incluindo operações para erradicar plantações de coca, acordos de extradição, fornecimento de armas, treinamento e assistência militar.

Mas apesar dos bilhões de dólares investidos em mais de meio século, o mercado de drogas ilegais nunca foi eliminado, e o tráfico se adaptou e se expandiu.

Agora, sob o governo do republicano Donald Trump nos EUA e com a cooperação de líderes aliados na região, a "guerra às drogas" entrou em uma nova era, marcada pelo aumento da militarização e por uma retórica que equipara traficantes a terroristas.

"É absolutamente uma nova era, por vários elementos. Um deles é a militarização extrema, sem precedentes", diz à BBC News Brasil a cientista política Vanda Felbab-Brown, pesquisadora sênior da Brookings Institution, think tank com sede em Washington.

No Brasil, o combate ao crime organizado é um tema relevante na disputa presidencial entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que voltarão a se enfrentar no segundo turno, em 25 de outubro.

Flávio Bolsonaro já disse que, caso seja eleito, o Brasil passará a integrar o Escudo das Américas — uma aliança regional lançada por Trump para ampliar a cooperação, a segurança e o combate ao narcotráfico — e defendeu a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas. O anúncio dessa designação pelo governo Trump foi feito em maio, dois dias após visita de Bolsonaro à Casa Branca.

Em setembro, às margens da Assembleia Geral da ONU, os países do Escudo das Américas anunciaram a intenção de também declarar o PCC e o CV como terroristas, ao lado de outras organizações criminosas da região.

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Uma vitória da direita no Brasil seria importante para a estratégia de Trump na região, mas até o momento o republicano não declarou apoio explícito a nenhum dos candidatos. No entanto, Trump não esconde que considera Bolsonaro um aliado e descreveu seu desempenho no primeiro turno como "uma grande vitória".

"Não há dúvida de que a relação (com Flávio) seria muito mais forte e próxima para o governo Trump do que se Lula vencer", diz Felbab-Brown. "Mas eu ficaria surpresa se víssemos um papel amplo e permissivo para as Forças Armadas dos EUA."

"Flávio teria que contrariar muitos de seus próprios grupos de apoio, como os militares brasileiros, para estabelecer mecanismos de colaboração como os que vemos no Equador, por exemplo", observa.

Já o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva brasileiro não vê com bons olhos as propostas de militarização da região.

Para um auxiliar de Lula ouvido em caráter reservado pela BBC News Brasil, os EUA estão usando o combate ao crime organizado no continente americano com uma espécie de "cavalo de Troia" para ampliar sua influência na região.

Na metáfora usada pelo auxiliar de Lula, o combate ao narcotráfico seria o "cavalo" de madeira grego e os "soldados" dentro dele seriam os interesses norte-americanos que os países da região estariam colocando para "dentro de casa" ao aderirem à política dos EUA para o continente americano.

A avaliação do auxiliar de Lula foi feita após a divulgação do comunicado conjunto feito pelos 15 países do Escudo das Américas em setembro, se comprometendo a adotar sanções contra 24 facções criminosas, entre elas duas do Brasil: o Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho.

Apesar de o texto ter como foco a adoção de medidas conjuntas contra os grupos criminosos da região, ele também menciona temas como infraestrutura digital, cooperação econômica e até mesmo o acesso a minerais críticos.

Segundo esse auxiliar, os Estados Unidos estão usando o combate às facções criminosas na região como um pretexto para avançar agendas mais amplas e diversas que o mero ataque à criminalidade na região.

Na avaliação dele, a adesão dos países à postura norte-americana é perigosa e cria o terreno para que qualquer tema do interesse dos EUA na região possa ser tratado a partir da lógica de segurança nacional, o que em última instância, poderia justificar ações militares.