Há qualquer coisa de profundamente simbólico no facto de um Papa chamado Leão ter escolhido falar de inteligência artificial.
Em 1891, Leão XIII publicou a Rerum Novarum, quando a Revolução Industrial estava a transformar o trabalho, a economia e as relações sociais. Cento e trinta e cinco anos depois, Leão XIV publica a Magnifica Humanitas, perante uma outra revolução: mais silenciosa, mais veloz e talvez ainda mais difícil de compreender. A revolução do algoritmo.
A comparação não é apenas uma curiosidade histórica. É, provavelmente, uma das melhores chaves para perceber o que está verdadeiramente em causa.
A Magnifica Humanitas não é, no essencial, uma encíclica sobre inteligência artificial. É uma encíclica sobre o ser humano diante de uma tecnologia que começa a transformar não apenas aquilo que fazemos, mas também a forma como pensamos, trabalhamos, comunicamos e tomamos decisões.
Antonio Spadaro escreveu no EL PAÍS que este é, em última análise, um documento sobre o ser humano escrito a partir do interior de uma revolução tecnológica. É uma leitura particularmente feliz e talvez seja precisamente por isso que o documento merece ser lido muito para além das fronteiras da Igreja.
Digo isto trabalhando na área tecnológica e sem sentir qualquer contradição.
Quem trabalha com tecnologia todos os dias sabe melhor do que ninguém aquilo que ela pode fazer. Sabe o tempo que pode poupar, os processos que pode simplificar, os serviços que pode melhorar e a capacidade que tem para transformar organizações inteiras.
Mas também sabe uma coisa igualmente importante: uma tecnologia pode ser extraordinariamente eficiente e, ainda assim, não produzir uma sociedade melhor.
É aqui que começa a verdadeira discussão.
Vivemos num tempo em que a palavra “inovação” adquiriu quase um estatuto religioso. Tudo aquilo que é novo parece necessariamente melhor. Tudo aquilo que pode ser automatizado parece necessariamente dever ser automatizado. E tudo aquilo que uma máquina consegue fazer mais depressa parece, por definição, uma tarefa que o ser humano deveria deixar de fazer.
É uma lógica perigosa.
A inteligência artificial não precisa de se tornar humana para transformar profundamente a humanidade. Basta que os seres humanos comecem a comportar-se como máquinas.
É esta inversão que o Papa Leão XIV nos obriga a encarar na Magnifica Humanitas.
Não deveríamos perguntar apenas até onde conseguiremos levar a inteligência artificial. Deveríamos perguntar até onde queremos levar a nossa própria sociedade.
Quando um algoritmo decide quem recebe crédito, quem é selecionado para uma entrevista, que informação aparece no nosso ecrã ou que conteúdos milhões de pessoas irão consumir, já não estamos perante uma simples ferramenta. Estamos perante uma forma de poder.
E é precisamente aqui que a reflexão de Leão XIV ganha uma dimensão política que ultrapassa largamente o debate religioso.
No Le Monde, Stéphane Lauer chamou a atenção para uma questão incómoda: talvez estejamos a assistir a uma transformação tecnológica que avança muito mais depressa do que a capacidade das nossas instituições para a enquadrar.
É uma observação que merece ser levada a sério, pois durante décadas, dissemos que a política deveria acompanhar a inovação. Hoje, talvez tenhamos de admitir que a inovação está a avançar muito mais depressa do que a capacidade da política para a acompanhar.
As empresas tecnológicas conseguem desenvolver, testar e lançar novos sistemas em meses. As democracias precisam de anos para construir legislação, negociar consensos e criar instituições capazes de fiscalizar esses mesmos sistemas.
O resultado é um desequilíbrio perigoso.
Quem possui os dados, os computadores, os modelos e o capital passa a possuir também uma parcela crescente da capacidade de definir o futuro.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário