Que fazer com este admirável e perigoso instrumento, agora que ele já está, irreversivelmente, dentro da consulta, do bloco operatório e do posto de enfermagem?

Há quem prometa que a inteligência artificial vai salvar a saúde. Há quem jure que a vai matar de vez. A verdade, como sempre, é mais aborrecida e mais incómoda do que qualquer um dos dois evangelhos.

Comecemos pelos factos, já que é moda recente considerá-los opcionais.

Este é o paradoxo essencial que qualquer debate sério sobre IA em saúde devia colocar no centro da mesa, em vez de o empurrar educadamente para debaixo do tapete: o algoritmo não inventa preconceitos do nada, mas é extraordinariamente eficiente a escalá-los. Um enfermeiro cansado pode ser injusto com um doente num turno mau. Um algoritmo mal calibrado é injusto, exatamente da mesma forma, com duzentos milhões de doentes ao mesmo tempo, todos os dias, sem fadiga e sem remorso, porque remorso não é uma propriedade que se compile em código.

A inteligência artificial não vai salvar a saúde. Também não a vai destruir. Vai fazer exatamente aquilo que todas as tecnologias poderosas sempre fizeram ao longo da história da medicina: amplificar fielmente as virtudes e os vícios do sistema em que é instalada. Um sistema generoso, bem-dotado e eticamente vigilante vai usá-la para cuidar melhor. Um sistema desleixado, subfinanciado e tecnicamente desatento vai usá-la para fazer pior, mais depressa, e com um relatório de desempenho extraordinariamente convincente para mostrar ao Conselho de Administração.