Uma das principais vozes contemporâneas do pensamento anti-imperialista e do Sul Global, Vijay falou ao DCM sobre o cenário político-eleitoral brasileiro a partir de uma perspectiva geopolítica. Ele vê o Brasil como ponto de inflexão na estratégia de Washingt…

Uma das principais vozes contemporâneas do pensamento anti-imperialista e do Sul Global, Vijay falou ao DCM sobre o cenário político-eleitoral brasileiro a partir de uma perspectiva geopolítica.

Ele vê o Brasil como ponto de inflexão na estratégia de Washington para a chamada “captura das Américas”. O Brasil seria hoje “o grande prêmio” e a peça final para a conclusão desse projeto.

Flávio Bolsonaro, por interesse próprio, coloca-se intencionalmente à disposição dos Estados Unidos como peça central desse projeto americano no Brasil. Segundo Vijay, Flávio colocou um alvo no Brasil ao levar o alinhamento com Washington a uma dimensão ainda mais radical do que a de Jair Bolsonaro — e muito além até mesmo daquela da ditadura militar.

Ao comentar a carta enviada por Flávio ao secretário de Estado Marco Rubio, ele a chama de “Carta de amor de Flávio a Trump” e diz que o caso Rockbridge sugere que as terras raras parecem ser a propina de Flávio em troca da intervenção na soberania brasileira. O Rockbridge Network é uma rede de financiadores da extrema direita ligados ao Vale do Silício e que foi fundada pelo vice-presidente dos EUA, J. D. Vance.

Um memorando chamado “Prosperity Partnership”, elaborado por André Marinho, candidato do Partido Novo a governador do Rio de Janeiro e filho do suplente de Flávio Bolsonaro ao Senado, inclui diretrizes em inglês de como seria uma parceria do governo de Flávio Bolsonaro com os Estados Unidos para exploração de minerais críticos e terras raras. Em resumo, ele propõe o afastamento da China e um completo alinhamento com os americanos.

Vijay identifica, ao mesmo tempo, uma cisão dentro da própria elite brasileira diante dessa estratégia e questiona: “Por que existe esse memorando? Por que ele [Marinho] foi ver J.D. Vance? O que esse homem tem a ver com o governo dos EUA?” Ele se mostra crítico ao processo de desindustrialização brasileira e à baixíssima integração do Brasil com a América Latina, que vê como chave para a economia e a soberania brasileiras. “Lula prometeu estabilidade dentro do Brasil. Flávio Bolsonaro, por outro lado, promete abertamente a um estrangeiro, Marco Rubio, estabilidade para os Estados Unidos”, diz.

Diário do Centro do Mundo: Vijay, você acha que os Bolsonaros conseguirão obter ajuda de Trump e, de alguma forma, vencer por meio de fake news e financiamento estrangeiro?

Vijay Prashad: Donald Trump e o grupo ao redor dele, particularmente Marco Rubio, colocaram como objetivo capturar — e estou usando a palavra “capturar” de maneira muito deliberada — as Américas. Quando Trump articulou o corolário Trump à Doutrina Monroe, deixou muito claro que as Américas são propriedade dos Estados Unidos. Tanto que, naquele momento, disse: “Os Estados Unidos simplesmente vão tomar a Groenlândia, que, como você sabe, faz parte das Américas.”

E depois disse pessoalmente que vai tomar a Venezuela. Na verdade, apoderar-se da Venezuela, e não apenas sequestrar ilegalmente seu presidente, Nicolás Maduro, mas tomar a Venezuela e nomear Marco Rubio governador da Venezuela.

Ele também está interessado em tomar Cuba. Mas deixemos isso de lado por um momento. Cerca de dez países da América Latina são hoje governados pela extrema direita, desde El Salvador de Nayib Bukele até a Argentina de Javier Milei e o Chile de José Antonio Kast. Portanto, o grande prêmio para os Estados Unidos não é Daniel Noboa no Equador. O verdadeiro prêmio é o Brasil. O Brasil é o maior país das Américas depois dos Estados Unidos. É uma economia formidável. É, você sabe, a âncora da América Latina.

Embora exista uma diferença linguística entre espanhol e português, ainda assim desempenha um papel muito importante, vital, nas Américas. E se os Estados Unidos desta vez conseguirem colocar um Bolsonaro em Brasília, isso seria muito útil para a ambição dos EUA de capturar as Américas. Na vez anterior em que houve um Bolsonaro — isto é, quando Jair Bolsonaro era presidente —, Donald Trump não estava realmente pronto para capturar as Américas. Ainda estava lidando com a Venezuela e não sabia o que fazer com Cuba. E seu assessor John Bolton lhe dava conselhos contraditórios.

Desta vez, tanto Trump quanto Marco Rubio parecem muito mais mobilizados pelas possibilidades de longo prazo de uma tomada das Américas. Tomar o Brasil com o jovem Bolsonaro, que, penso eu, teria imediatamente assessores americanos ao seu redor, moldaria as Américas por uma geração, se não mais, e moldaria o Brasil para o poder da direita por uma geração, se não mais.

Portanto, há muita coisa em jogo. Sei que, toda vez que há uma eleição no Brasil, as pessoas dizem: esta é a eleição em que tudo está completamente polarizado e as pessoas precisam votar em Lula etc. Esta é a quarta oportunidade em que Lula pode vencer — não a quarta vez que concorre à Presidência; lembre-se de que ele concorreu muitas vezes antes.

Mas Lula pode ser uma barreira à extrema direita que quer transformar as Américas por uma geração. E eu não digo esse tipo de coisa hiperbólica com frequência nem levianamente. Acho realmente que há evidências materiais aqui, e podemos vê-las no que aconteceu na Venezuela: os Estados Unidos estão absolutamente determinados a tomar as Américas, e o Brasil é o maior prêmio.

O que a volta ao poder dos Bolsonaros no Brasil, com o apoio de Trump, significaria para o futuro do BRICS e, de maneira mais ampla, para a ordem multipolar?

Quero apenas lembrar que o México também é uma barreira ao poder dos EUA, mas não inteiramente, porque economicamente está tão integrado aos Estados Unidos que sua margem de manobra é limitada. O Brasil tem uma margem de manobra muito maior, razão pela qual é um ator de liderança no processo BRICS Plus. O Brasil desempenhou um papel importante na solidariedade global. Nos segundo e terceiro mandatos de Lula como presidente, ele colocou na mesa a questão do desenvolvimento africano. Disse que o Brasil tem uma dívida com os povos africanos etc.

O Brasil desempenha um papel que o México não pode desempenhar porque o México está economicamente demasiado atrelado aos Estados Unidos. Bem, sim, quero dizer, vamos recuar um pouco.

Nos últimos anos, Javier Milei fez uma abertura ao governo israelense, e eles assinaram os chamados Acordos de Isaac. Assim, enquanto os Acordos de Abraão foram uma manobra para levar os países do mundo árabe à normalização com Israel, argentinos e israelenses iniciaram um processo chamado Acordos de Isaac para normalizar as relações dos países da América do Sul e da América Latina com Israel. A Argentina é o primeiro signatário dos Acordos de Isaac, mas eles estão avançando rapidamente. El Salvador vai aderir, a Colômbia vai aderir. Haverá países andinos aderindo. O único país que não pode aderir é o Chile, porque há meio milhão de palestinos no país, e José Antonio Kast não é louco a ponto de enfurecer meio milhão de pessoas. Muitas delas, na verdade, votavam na direita, e acho que ele entende isso. Isso seria ir longe demais para o Chile.

Mas Flávio Bolsonaro vai aderir aos Acordos de Isaac no dia seguinte à sua posse. Isso significa normalização com Israel. Significa maior comércio com Israel. Significa que agora você pode expressar abertamente seu desprezo pela ideia de um Estado palestino. Significa nenhum apoio ao povo palestino. Pode significar leis duras dentro do país contra o chamado “antissemitismo”, que, da maneira como é definido, equivale essencialmente à atividade pró-Palestina. Qualquer atividade pró-Palestina poderia ser definida como antissemita, e assim por diante. O Brasil é um país dividido. Sejamos claros: não é um país de esquerda. Talvez seja até socialmente um país de centro-direita, mas o Brasil tem uma parcela muito grande da população comprometida em pôr fim ao genocídio em Gaza. Uma parcela muito grande da população. As atividades dessas pessoas seriam criminalizadas se o Brasil entrasse nos Acordos de Isaac, e então sabemos o que isso significaria.

Flávio Bolsonaro também é relativamente imaturo, ao contrário do pai. Não estou dizendo que Jair Bolsonaro fosse um homem muito maduro, mas ele era mais velho. Não quero dizer maduro no sentido político, mas maduro no sentido de ser mais velho. É mais difícil influenciá-lo, de fato. Flávio Bolsonaro não tem a possibilidade de ter o pai ao seu lado; isso é muito importante para aconselhá-lo e assim por diante. Não sei o que vai acontecer. Quando chegar ao poder, o pai se tornará seu principal conselheiro? Estará fora da prisão domiciliar?