Divida o número de empregos com carteira assinada no setor privado pelo número de pessoas atendidas pelo Bolsa Família. O resultado nunca passou de 1 nos úl...
Divida o número de empregos com carteira assinada no setor privado pelo número de pessoas atendidas pelo Bolsa Família. O resultado nunca passou de 1 nos últimos seis anos. Em 2025, o melhor ano da série, o país tinha 0,81 emprego formal para cada beneficiário do programa — ou seja, quatro carteiras assinadas para cada cinco brasileiros que dependem da transferência.
Não é um indicador de eficiência nem de justiça social. É uma medida grosseira de proporção: de um lado, o país que trabalha com contrato, contribuição previdenciária e direito trabalhista; do outro, o país que precisa de um depósito mensal do Tesouro para comer. Convém olhar para ele de vez em quando.
Em 2020 a razão estava em 0,71. Subiu para 0,79 em 2021, puxada pela recuperação rápida do emprego formal depois da pandemia. E despencou para 0,67 em 2022 — o pior número da série.
Não foi porque o emprego caiu. O emprego formal seguiu crescendo, de 34,1 para 36,7 milhões de carteiras. O que aconteceu foi do outro lado: o Auxílio Brasil saltou de 14,5 para 21,6 milhões de famílias em doze meses, com benefício mínimo de R$ 600 sancionado às vésperas da eleição. Em pessoas, o programa passou de algo perto de 43 milhões para 55 milhões de beneficiários em um ano.
Foi expansão fiscal eleitoral pura, via PEC do estado de emergência, furando o teto de gastos. O denominador explodiu e o indicador afundou.
Vale registrar um detalhe técnico que virou problema estrutural: parte desse salto veio da multiplicação de famílias unipessoais no CadÚnico, que pularam de 2 milhões para 5 milhões entre 2022 e 2023. Gente se cadastrando sozinha para maximizar o benefício per capita. O programa cresceu mais em cadastros do que em pobreza.
De 2023 para cá a razão subiu todo ano: 0,68, 0,72, 0,81. Dessa vez o movimento veio dos dois lados.
O emprego formal seguiu firme. São 39,4 milhões de carteiras assinadas no setor privado no fim de 2025, com desemprego em 5,1%, o menor da série da PNAD, e informalidade em queda contínua desde 2022. São quase 10 milhões de empregos formais a mais que em 2020.
E o programa encolheu de verdade. O Bolsa Família fechou 2025 com 48,9 milhões de pessoas atendidas, contra 54,3 milhões um ano antes e um pico de 56,2 milhões em outubro de 2023. Sumiram 7 milhões de beneficiários em dois anos — parte por revisão cadastral e pente-fino no CadÚnico, parte por aumento de renda. O MDS afirma que cerca de 2 milhões de famílias saíram em 2025 por terem melhorado de vida, muitas passando pela Regra de Proteção.
Duas leituras, e as duas têm mérito.
A otimista: o mercado de trabalho está absorvendo gente que antes dependia do programa. Um mercado apertado, com desemprego em mínima histórica, é a política social mais eficaz que existe. Emprego formal paga melhor que transferência, dá previdência, dá crédito, dá trajetória. A Regra de Proteção — que mantém metade do benefício por doze meses para quem sobe de renda — é justamente o desenho que faz a porta de saída funcionar sem punir quem arruma trabalho.
A cética: parte da queda é administrativa, não econômica. A fila de famílias pré-habilitadas chegou a 987 mil em novembro, a maior desde 2022, e os cortes aceleraram exatamente quando o orçamento do programa apertou, de R$ 167 bilhões para R$ 160 bilhões. Sair por auditoria não é a mesma coisa que sair por ter arrumado emprego.
Provavelmente é uma mistura das duas. Mas o ponto que fica é o nível, não a variação. Mesmo no melhor momento do mercado de trabalho brasileiro desde que a PNAD existe, com desemprego em 5%, ainda há mais brasileiros vivendo de Bolsa Família do que brasileiros com carteira assinada no setor privado. Isso diz menos sobre o programa e mais sobre a estrutura produtiva que o torna necessário: um país que gera muito trabalho de baixa produtividade e pouco emprego formal bem pago não sai da transferência de renda por decreto.
Dados: PNAD Contínua/IBGE, empregados com carteira no setor privado, 4º trimestre; MDS, pessoas atendidas em dezembro.




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