A modernidade é uma ideia sedutora, não? Ela traz implícita a noção de que uma novidade é capaz de mudar para melhor nossa relação com a realidade simplesmente por ser novidade. Ela pode deixar para trás as limitações de ontem, ou prometer tornar mais simples…
A modernidade é uma ideia sedutora, não? Ela traz implícita a noção de que uma novidade é capaz de mudar para melhor nossa relação com a realidade simplesmente por ser novidade. Ela pode deixar para trás as limitações de ontem, ou prometer tornar mais simples, rápido, limpo ou eficiente aquilo que fazíamos antes. Em algum momento dos últimos séculos, especialmente depois da Revolução Industrial, aprendemos a associar novidade a progresso quase automaticamente. Se é novo, deve ser melhor. Se parece diferente do que existia antes, provavelmente estamos assistindo à construção do futuro.
Não é difícil entender de onde vem esse fascínio. Durante boa parte da história humana, uma geração vivia em um mundo bastante parecido com aquele em que seus avós haviam vivido. A industrialização mudou essa percepção. Máquinas, eletricidade, automóveis, aviões, rádio, antibióticos, computadores: pela primeira vez, o mundo podia mudar radicalmente durante uma única vida. Boa parte dessas mudanças realmente tornou a vida melhor.
Talvez seja por isso que ainda hoje exista alguma resistência em questionar uma novidade. Criticar algo apresentado como moderno pode facilmente soar como nostalgia, medo de mudança ou aquele velho impulso de dizer que “antigamente era melhor”. Reconhecer esse progresso não significa aceitar toda novidade como progresso.
A história da tecnologia não é uma marcha contínua em direção a soluções cada vez melhores, sem desvios, recuos ou ideias que precisaram ser abandonadas. Muitas vezes, avançar significa testar possibilidades, descobrir seus limites e, mais tarde, recuperar alguma delas sob condições diferentes. O novo pode ser uma melhoria real; também pode ser apenas uma solução antiga que fracassou e foi recuperada por uma geração distante daquela experiência.
Claro, nem toda ideia abandonada foi deixada de lado pelo fracasso. Às vezes faltava tecnologia para fazê-la funcionar. Em outros casos, a novidade resolvia um problema criando dois novos. Outras simplesmente funcionavam pior que aquilo que pretendiam substituir. O problema acontece quando esquecemos por que elas foram abandonadas.
Os automóveis são um lugar particularmente interessante para observar esse movimento. Poucas tecnologias mudaram tanto ao longo de pouco mais de um século e, ao mesmo tempo, conservaram tantos problemas fundamentais. Cada geração de engenheiros, fabricantes e consumidores recebeu um conjunto de desafios — autonomia, segurança, conforto, praticidade, custo, eficiência — e tentou resolvê-los com as ferramentas disponíveis. Algumas soluções sobreviveram. Outras desapareceram. Muitas voltaram décadas depois com outra tecnologia, outro desenho e outro discurso — às vezes porque finalmente podiam funcionar, às vezes porque ninguém parecia lembrar muito bem por que tinham desaparecido.
É por isso que, editorialmente, sempre fomos cautelosos em decretar o futuro, em assumir certezas com facilidade – às vezes, a ponto de sermos vistos como conservadores reacionários e saudosistas. Mas não é isso. O ser humano tem uma característica extraordinária: não precisa recomeçar do zero a cada geração. Somos capazes de acumular conhecimento, preservar experiências de quem veio antes e construir em cima delas. É por isso que alguém pode desenvolver hoje uma tecnologia baseada em descobertas feitas por pessoas que morreram há séculos — sem precisar refazer pessoalmente todo o caminho que levou até ali.E há uma coisa que nenhuma novidade tem quando aparece: tempo de uso. É o tempo que revela se uma solução realmente funciona, quais problemas ela cria e se suas vantagens compensam suas limitações. Quando ignoramos experiências anteriores, corremos o risco de fazer novamente testes cujos resultados já conhecíamos. Então sempre que aparece uma ideia nova, que promete revolucionar a realidade, é preciso ter cautela. Especialmente nesta era em que a tecnologia permite avançar tão rapidamente.
Comandos táteis que substituem botões? Já fizemos isso. Portas que dispensam uma maçaneta mecânica? Também. Seletores de câmbio reinventados, carros compartilhados e até a promessa de substituir o motor a combustão pelo elétrico têm precedentes históricos que ajudam a entender não apenas de onde essas ideias vieram, mas quais problemas elas tentavam resolver — e quais acabaram criando.
É claro que isso não significa que estamos condenados a repetir eternamente nossos erros. Às vezes uma ideia antiga volta porque finalmente encontrou a tecnologia de que precisava. Às vezes os problemas do passado foram realmente solucionados. E às vezes uma ideia moderna é só um velho erro de roupa nova.
Lembra quando contamos a história do primeiro carro com uma tela sensível ao toque, o Buick Riviera de 1986? A curiosidade era justamente esta: algo que parecia ter surgido com os smartphones e os sistemas multimídia modernos já existia quando as interfaces gráficas ainda eram novidade até nos computadores pessoais.
Mas essa é apenas a parte curiosa dessa história. A parte que importa de verdade não foi a invenção da touchscreen automotiva 40 anos atrás, mas o que aconteceu depois disso.
O sistema se chamava Graphic Control Center, ou GCC. Em vez de uma tela LCD, usava um pequeno monitor CRT, como as TVs e monitores de computador da época, com fundo preto e gráficos verdes. Por meio dele o motorista controlava o rádio e o ar-condicionado, consultava informações sobre consumo e viagem, diagnósticos de vários sistemas do carro, lembretes de manutenção e outras funções. Era, na prática, uma central multimídia moderna em 1986.
Parecia uma ótima ideia, porque além de vender a imagem de modernidade em uma época na qual o mercado americano era inundado por carros japoneses, uma interface única poderia substituir dezenas de botões, knobs e interruptores.
Para acrescentar uma função nova não era preciso encontrar mais espaço no painel para mais um botão — nem mesmo desenvolver um componente físico. A informação podia ser organizada em diferentes telas. E, acima de tudo, aquilo parecia o futuro. Em uma época na qual computadores pessoais ainda eram raros nas casas americanas, havia um computador no painel de um Buick respondendo ao toque do motorista.
O único problema é que você precisava olhar para ele.
Esse problema não foi descoberto quatro décadas depois pelos críticos das centrais multimídia atuais. Ele apareceu praticamente junto com o GCC. Em 1986, uma avaliação do Christian Science Monitor já apontava que o sistema podia distrair o motorista. O próprio manual recomendava que o proprietário se familiarizasse completamente com o Graphic Control Center antes de usá-lo no trânsito.
A razão era evidente: um botão físico tem forma, posição, resistência e movimento. Depois que você aprende onde ele está, consegue encontrá-lo pelo tato. É meio como tocar o próprio nariz. Dá para aumentar a temperatura, mudar o volume ou acionar uma função sem desviar os olhos do trânsito. Já a superfície lisa de uma tela não tem referência tátil alguma. Antes de tocá-la, normalmente você precisa conferir onde seu dedo vai acertar (e você ainda pode errar se o carro balançar bem na hora de tocar a tela). Pior: se a função estiver dentro de um menu, você também precisa conferir em qual tela está navegando.
A tecnologia de 1986 agravava tudo isso: os comandos virtuais eram pequenos, a interface era rudimentar e a capacidade de processamento era limitada. Mas nenhuma dessas limitações explicava a falta de referência tátil.
A Buick ainda insistiu na ideia no Reatta, lançado em 1988, que ganhou uma evolução daquele sistema, chamada Electronic Control Center. Durou pouco: em 1990 a Buick deixou de oferecer a tela e trouxe de volta os comandos físicos para rádio e ar-condicionado. A própria GM, ao revisitar o Riviera em 2025, reconheceu que a complexidade e o tamanho dos comandos virtuais tornavam os sistemas confusos e difíceis de operar dirigindo.
Depois disso, as telas sensíveis ao toque praticamente desapareceram dos carros por algum tempo até que, na era dos smartphones e tablets, a indústria automotiva achou brilhante a ideia de levar a tecnologia dos gadgets para os carros.




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