A relação entre Haiti e Seleção Brasileira tem capítulos que vão além do futebol. Um deles foi resgatado pelo perfil Almanaque da Copa 2026, em publicação no X: a derrota do Brasil para a Bélgica nas quartas de final da Copa de 2018 acabou atravessando uma cr…

A relação entre Haiti e Seleção Brasileira tem capítulos que vão além do futebol. Um deles foi resgatado pelo perfil Almanaque da Copa 2026, em publicação no X: a derrota do Brasil para a Bélgica nas quartas de final da Copa de 2018 acabou atravessando uma crise política em Porto Príncipe e ajudou a acelerar a queda do então primeiro-ministro haitiano Jack Guy Lafontant.

Naquele 6 de julho de 2018, enquanto boa parte da população haitiana acompanhava Brasil x Bélgica, o governo anunciou um forte aumento nos preços dos combustíveis. A gasolina subiria 38%, o diesel, 47%, e a querosene, 51%. A querosene tinha peso especial na vida cotidiana dos mais pobres, por ser usada em casas sem acesso regular à energia elétrica.

Segundo o Almanaque da Copa, citando reportagem da época da revista The Economist, integrantes do governo apostavam que uma vitória brasileira amorteceria a reação popular. A lógica era simples: se o Brasil passasse à semifinal, os haitianos estariam nas ruas comemorando, não protestando contra o fim dos subsídios aos combustíveis.

O problema é que o Brasil perdeu por 2 a 1. A arrancada de Romelu Lukaku, o chute de Kevin De Bruyne e as defesas de Thibaut Courtois não derrubaram apenas o time de Tite. Minutos depois do apito final, a frustração com a eliminação se misturou à revolta contra o aumento. Ruas foram bloqueadas, pneus foram queimados e manifestações se espalharam principalmente pela região metropolitana de Porto Príncipe.

A medida fazia parte de um acordo com o Fundo Monetário Internacional para liberar acesso a recursos, incluindo doações e empréstimos. Mas, no Haiti, onde a inflação, a miséria, o desemprego e o baixo poder de compra já pressionavam a população, o anúncio funcionou como estopim. Os protestos tiveram episódios de violência, saques, voos cancelados e mortos.

A crise forçou o governo a recuar. Primeiro, o aumento foi suspenso. Depois, a pressão política chegou ao centro do poder. Em 14 de julho de 2018, oito dias após a derrota do Brasil, Lafontant renunciou ao cargo em meio à ameaça de voto de desconfiança no Parlamento.

O episódio mostra como a paixão haitiana pela Seleção Brasileira não é folclore esportivo. Ela tem força social e simbólica suficiente para entrar no cálculo político de um governo. Em 2018, esse cálculo saiu errado: o Brasil caiu na Copa, e o Haiti explodiu nas ruas.