Uma das funções mais importantes do Estado no desenvolvimento econômico é assumir riscos que agentes privados, individualmente, muitas vezes não estão dis...
Uma das funções mais importantes do Estado no desenvolvimento econômico é assumir riscos que agentes privados, individualmente, muitas vezes não estão dispostos ou não conseguem assumir.
A razão é relativamente simples. Uma empresa ou um investidor privado coloca em risco seu próprio patrimônio ou o patrimônio de um grupo relativamente pequeno de acionistas. Se um projeto exigir bilhões de dólares, levar décadas para amadurecer e ainda apresentar enorme incerteza sobre seu resultado, a tendência natural será exigir uma taxa de retorno muito elevada ou simplesmente não realizar o investimento.
O Estado funciona de maneira diferente. Seus recursos são formados pela agregação de milhões de pequenas contribuições individuais, principalmente por meio dos impostos. Isso cria uma enorme capacidade financeira e, mais importante, permite distribuir o risco de um determinado investimento por toda a sociedade e ao longo do tempo.
É quase como uma gigantesca mutualização do risco. O custo individual de uma experiência malsucedida pode ser pequeno, enquanto o benefício social de uma experiência bem-sucedida pode ser extraordinariamente grande.
Por isso, em determinadas áreas, o Estado consegue operar com um horizonte de tempo e uma tolerância ao risco que dificilmente encontramos no setor privado.
O pré-sal brasileiro é um bom exemplo. Explorar petróleo a milhares de metros de profundidade, abaixo de uma extensa camada de sal, exigiu décadas de desenvolvimento tecnológico, investimentos gigantescos e disposição para enfrentar riscos geológicos e tecnológicos consideráveis. A Petrobras, apoiada por décadas de acumulação de conhecimento e investimento público, teve papel central na construção dessa capacidade.
A Embraer oferece outro exemplo interessante. A construção de uma indústria aeronáutica brasileira não nasceu simplesmente porque investidores privados descobriram espontaneamente uma oportunidade extremamente rentável. Ela foi resultado de uma estratégia que envolveu a criação do ITA, formação de engenheiros, pesquisa tecnológica, compras governamentais e a própria criação da Embraer como empresa estatal em 1969. Décadas depois, o Brasil se tornou um dos poucos países capazes de projetar e fabricar aviões comerciais competitivos internacionalmente.
Talvez o exemplo mais famoso seja o próprio iPhone. A Apple realizou um trabalho extraordinário de integração, design, engenharia e comercialização. Mas várias tecnologias fundamentais que tornaram o smartphone possível têm raízes em pesquisas financiadas pelo governo americano: internet, GPS, avanços em microeletrônica, tecnologias de comunicação e interfaces computacionais. Instituições como a DARPA financiaram pesquisas durante décadas, muitas vezes quando sua aplicação comercial ainda era impossível de prever.
Isso revela uma característica fundamental do processo de inovação. Muitas das tecnologias que transformam nossas vidas começam em lugares nos quais ninguém sabe exatamente qual será o retorno financeiro.
O empresário normalmente pergunta: quanto vou ganhar se esse investimento funcionar?
O Estado pode fazer uma pergunta diferente: quanto a sociedade poderá ganhar se essa tecnologia funcionar?
Essa diferença é enorme.
Projetos de fronteira tecnológica apresentam aquilo que os economistas chamam de elevada incerteza. Não sabemos apenas qual será o retorno. Muitas vezes nem sequer sabemos quais produtos poderão surgir daquela pesquisa. A internet não nasceu porque alguém apresentou um plano de negócios para criar redes sociais, comércio eletrônico, streaming e aplicativos de transporte. Essas possibilidades apareceram depois que a infraestrutura tecnológica básica já existia.
É justamente nesse estágio mais incerto que o investimento público pode ser decisivo.
Isso não significa que o Estado seja necessariamente melhor empresário que o setor privado, nem que todo investimento público seja eficiente. Estados também desperdiçam recursos, escolhem projetos ruins e podem ser capturados por interesses políticos. A questão é outra: há determinados riscos que precisam ser assumidos para que novas possibilidades econômicas existam, mas cujo retorno é incerto, distante ou difícil de ser apropriado por um único investidor privado.
Nesse espaço, Estado e iniciativa privada não são necessariamente concorrentes. Podem ser complementares.
O Estado assume parte do risco inicial, financia ciência, infraestrutura, formação de pessoas e tecnologias de fronteira. Quando a incerteza diminui e aparecem oportunidades comerciais mais claras, empresas privadas entram, inovam, competem, reduzem custos e transformam conhecimento em produtos.
Foi assim em boa parte da indústria aeroespacial, da informática, da internet, da biotecnologia, da energia e de inúmeras outras tecnologias modernas.
Uma economia sofisticada, portanto, não precisa escolher entre Estado e mercado. Essa é uma falsa oposição que empobrece o debate. O verdadeiro desafio é construir instituições públicas capazes de assumir riscos de maneira inteligente e instituições privadas capazes de transformar essas apostas em inovação, produtividade e crescimento.
Em algumas das maiores transformações tecnológicas da história, alguém precisou apostar quando quase ninguém queria apostar.




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