A dependência de subsídios estatais e a falta de fiscalização na habitação reduzem os incentivos à poupança. Ainda, a CPI vai desprestigiar a imagem da PJ?
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E o "Vencedor" é na Rádio Observador e também no YouTube com a Judite França, o Nuno Gonçalo Poças e a Raquel Abecasis. Eu sou o Ricardo Conceição. Hoje vamos falar sobre o artigo de Jaime Nogueira Pinto no Observador, também o do Chega, que vai rever o texto em que propõe a Comissão Parlamentar de Inquérito a Luís Neves. Será a terceira tentativa. Mas, Nuno Gonçalo Poças, vamos começar pelas medidas do governo para a crise. O primeiro-ministro irá falar às 20h, são 18h15. Para quem nos está a ouvir em podcast, ainda não sabemos o que é que o primeiro-ministro dirá, mas José Luís Carneiro diz que há dois milhões de portugueses que ficam fora das medidas entretanto já anunciadas.
Sim, são muito bem contadinhos. Tu sabes mais ou menos o que eu vou dizer, não sabes?
Depois desse tom de enfado, acho que sim.
Perante o suspiro, desconfio.
Eu hoje estava a pensar nisso, devíamos começar a fazer assim: eu dizia os temas.
E tu dizias: "Ele vai dizer isto assim assado", eu dava só a nota.
Acho que era mais fácil.
Olha que eu às vezes tenho tendência para acertar. Eu sou uma pessoa com capacidade.
Sim. O que é que tu me chamaste?
Há crianças no carro. Anda lá, tu estás aqui para emitir uma opinião.
Eu estava a ouvir uma coisa um bocado chocha. O José Luís Carneiro até foi assim em dois momentos, acho eu. "Então vai aprovar a CPI do JPP?" "Não." "Então, mas por quê?" "Porque já disse que não vou." E depois apareceu a dizer: "Há dois milhões de portugueses que não estão abrangidos pelas medidas e deviam pôr os olhos no que o PS fez nos anos da última crise inflacionista." Isto aborrece-me imenso.
Confesso. Em primeiro lugar, eu fiquei a pensar nisto. Tive uma primeira reação mais instintiva, e se calhar essa é a mais importante, mas há outra que me deixou a pensar. Eu ando a pensar nisso há muito tempo, na verdade, porque é uma coisa um bocadinho empírica. Na terça-feira estávamos aqui a falar do facto de como eu me rejo por perceções. Porque tenho este péssimo hábito de falar com muita gente e ouvir as pessoas e perceber mais ou menos como é que as coisas andam. E depois há umas estatísticas que nos podem ajudar, que depois compatibilizadas com isso, ajudam-nos a perceber mais ou menos o que se passa. E eu vou arriscar dizer isto aqui, pode ser um bocadinho polémico, mas eu acho que há imenso dinheiro neste país. Há imenso mercado paralelo, há imensa economia não declarada. Continua a haver, sim, imensos salários que não são declarados e são pagos por fora. Há muitas famílias que são ajudadas com a propina do colégio, a renda da casa, o empréstimo à casa, um carro que é oferecido, a conta do supermercado, etc, pelas gerações mais velhas e, portanto, de alguma maneira, eu até acho que nós, isto é uma coisa interessante de se pensar.
Sim, pelos pais, que são pagos por reformas. Que de alguma maneira eu acho que a sociedade arranjou um mecanismo de solidariedade intergeracional para além do Estado. Que eu acho que é um problema que nos levará a discutir muitas essas coisas depois no futuro, quando essa geração de pessoas que têm reformas um dia já cá não estiver, e as gerações dos nossos filhos depois olharem para nós e dizer: "Então e o guito?" E nós: "Agora já não está cá, porque aquele que tu tinhas era o do teu avô."
Exato. Não te queres ajudar a pagar o colégio.
Exatamente. E, portanto, eu tenho sempre umas grandes reservas, que eu sei que não são nada bem vistas. Cada vez que se fala destas coisas, dos apoios a não sei o quê. Com isto não quer dizer, obviamente, que não haja imensa gente espalhada por este país que de facto tem imensas dificuldades financeiras, económicas e que tem dificuldades em pagar isto, aquilo e o outro, incluindo as suas gerações pretéritas. Mas faz-me sempre um bocado de confusão que isto passe assim um bocadinho fora do radar e, portanto, também queria deixar aqui esta nota. A segunda é aquela que eu acho que tu sabes que eu vou dizer. Aborrece-me porque este discurso que todos os partidos sempre fazem, os que estão no governo e os que não estão no governo, e os que estão na oposição, e aqueles que não estão no governo, mas querem ir para o governo, e os que não estão no governo, mas também sabem que não vão para o governo, que é o de que o Estado, à mínima situação de crise, tem que bater a todas as portas e dizer: "Está aqui". E isto cansa muito, porque cada vez que se fala de crescimento da economia, produtividade, aquelas coisas todas são muito chatas. Na verdade, as pessoas mudam logo de canal, quando se começa a falar de números e destas coisas, é soporífero. Mas é isso, de facto, que liberta as sociedades e é isso que faz com que as pessoas tenham incentivos à poupança, com que poupem o seu próprio dinheiro, que se preparem para tempos mais difíceis ou não. Não quer dizer com isto, mais uma vez, que o Estado não tenha que, em determinadas alturas, exercer políticas redistributivas, por exemplo, e que não tenha um Estado Social e mecanismos de apoios, etc. O que me faz confusão é que Há uma espécie de paradigma entre nós, uma espécie de verdade institucionalizada, que é: primeiro, quem precisa de ajuda, precisa de ajuda sempre. A partir do momento em que dizemos: este senhor tem direito a renda, aquelas rendas apoiadas. O mecanismo legal prevê que ele vá precisar dela para sempre. Já agora vou contar isto, estou assim numa de desabafos. Deixa-me contar isto.
Este programa é o programa do Nuno Salvo Possas.
Estamos a ouvir com imenso interesse.
Houve uma vez um senhor que tinha, não sei se ainda tem, não foi há muitos anos, um cargo de responsabilidade numa Câmara Municipal deste país e que me disse assim: "Em política de habitação, você quer ter uma renda apoiada?" Eu disse: "Não, mas por quê?" "É fácil."
"Despeça-se, arranje uma maneira de poder voltar a ter emprego rapidamente. Arranje um acordo qualquer com o patrão, despeça-se, vá para o subsídio desemprego. Está desempregado, candidata-se à renda apoiada e depois quando lhe derem a casa, volte para o seu emprego e a casa é pra vida."



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