A história ajuda-nos a entender o presente de uma forma mais completa. Pode, por isso, servir para dissipar o equívoco que entre nós persiste há décadas a propósito da designação do Partido Social-Democrata. Sem diluir o logro histórico em que ele assenta, é difícil compreender a essência política do partido, bem como as escolhas que adota e as expetativas que projeta no eleitorado. Vamos então viajar no tempo, até à origem e à gradual identificação da social-democracia como a ideologia que orienta a atividade de muitos partidos e movimentos que integram uma influente corrente do panorama político contemporâneo. 

Ela nasceu e desenvolveu-se na Europa pela segunda metade do século XIX, no contexto do movimento operário e do pensamento socialista, então em crescimento. Na diversidade das suas formas e objetivos, manteve sempre, como princípio fundamental, a intervenção reguladora e persistente do Estado-Providência sobre a economia e a sociedade, procurando promover os direitos dos trabalhadores e uma maior equidade social. Sustentou também, de forma maioritária, um compromisso com a defesa da democracia representativa e da transição gradual para uma sociedade de progresso e de maior justiça, sem a necessidade de a impor através da coletivização e de uma iniciativa política abrupta e violenta. 

Passou por três fases. A primeira foi a da criação, em 1864, da Associação Internacional dos Trabalhadores, ou Primeira Internacional, com Marx como um dos fundadores, tendo então uma orientação sobretudo reivindicativa e de defesa do papel da luta de classes. Já no final do século XIX, a segunda fase esteve ligada à fundação, em 1889, da Segunda Internacional, integrando duas vias em competição: a do comunismo revolucionário, de Friedrich Engels e Lenine, e a do reformismo social de base parlamentar, de Eduard Bernstein e August Bebel, em breve dominante. Foi aliás esta disputa que conduziu à cisão do Partido Operário Social-Democrata Russo entre mencheviques e bolcheviques, tendo estes últimos, sobretudo após a Revolução de Outubro de 1917, lançado as bases do Partido Comunista da União Soviética, assim nomeado anos depois.

A terceira fase, afirmada após a Segunda Guerra Mundial em ligação com várias experiências de poder, passou a aceitar a liberdade do mercado e a alternância democrática, procurando contrariar os males do capitalismo desregulado através da intervenção de um Estado que seja garante da saúde, da educação e da proteção social. Independentemente de diferentes experiências, de aqui em diante o trajeto da social-democracia tem mantido, seja como prática de poder ou de oposição, a defesa daqueles princípios. Fundada em 1951, a Internacional Socialista integra hoje 160 partidos socialistas, trabalhistas e social-democratas de mais de 100 países, sendo dois deles o PS e o vizinho PSOE.

Como se percebe, nada disto tem a ver com o PSD. Este é um partido neoliberal, integrando o Partido Popular Europeu, de centro-direita, frequentes vezes pactuante com bandeiras da extrema-direita e defensor da competitividade, do combate de todos contra todos, como fator decisivo na formulação da iniciativa política. Apesar de alguma influência inicial da social-democracia – foi esta, em palavras do próprio, a família política de Francisco Sá Carneiro – a evolução do partido seguiria no sentido oposto, afastando-o cada vez mais do caminho original. A sua sociologia no imediato pós-Abril foi dessa deriva um claro sinal, com as estruturas locais em larga medida rapidamente tomadas pela elite «patronal» e «tecnocrática» emergente na fase final do Estado Novo.