O domingo tem esse ritmo próprio, uma calmaria que convida a gente a olhar pela janela, tomar um café sem pressa e, inevitavelmente, pensar no passado. É cur...
O domingo tem esse ritmo próprio, uma calmaria que convida a gente a olhar pela janela, tomar um café sem pressa e, inevitavelmente, pensar no passado. É curioso notar como a franquia Star Wars parece viver esse mesmo dilema reflexivo ultimamente. Por um lado, há um esforço hercúleo da Lucasfilm para virar a página e deixar a Saga Skywalker descansar. A galáxia está se expandindo com produções como o vindouro Starfighter, as aventuras de The Mandalorian e Grogu, e os cantos inexplorados de Skeleton Crew e The Acolyte. Eles querem que a gente olhe para a frente, ou pelo menos para o lado. Mas, assim como em um domingo nostálgico, o passado tem uma gravidade implacável.
As exceções a essa regra de fuga do passado trouxeram sentimentos mistos. Tivemos o retorno glorioso de Hayden Christensen em Ahsoka, e a reunião tão aguardada dele com Ewan McGregor na série Obi-Wan Kenobi. Só que o reencontro entre o velho mestre e seu aprendiz caído enfrentou uma tempestade de areia. O fandom, sempre passional, dividiu-se. Houve quem não digerisse a introdução de novos antagonistas como Reva, ou o fato de a pequena Princesa Leia ter roubado os holofotes de um show que levava o nome do eremita de Tatooine. O resultado foi que, por quatro anos, a Lucasfilm tratou os eventos da série como aquele assunto delicado que a gente evita no almoço de família.
Porém, as cicatrizes de uma galáxia em guerra não desaparecem só porque paramos de falar sobre elas. É exatamente isso que a autora Rebecca Roanhorse nos lembra de forma magistral no recém-lançado livro Star Wars: Edge of the Abyss (Reign of the Empire). Em vez de grandiosas batalhas espaciais, a obra resgata o fio solto da série de TV através de uma lente profundamente íntima: a culpa de um pai.
No livro, somos presenteados com um momento silencioso e devastador entre Bail Organa e uma Leia já mais velha. O texto descreve que, embora eles raramente falassem sobre o sequestro de Leia — o evento que tirou Obi-Wan da aposentadoria —, a sombra daquele trauma era um peso constante sobre os ombros de Bail. Ele sabia, no fundo do seu coração de pai e diplomata, que a culpa havia sido dele. Suas escolhas políticas e, principalmente, sua velha amizade com os Jedi transformaram sua menininha em um alvo para o Império.
Essa é a primeira vez que o cânone olha para trás e reconhece as ramificações psicológicas da série Obi-Wan Kenobi. É um detalhe pequeno, mas que muda completamente a textura da relação entre Bail e Leia. A rebelião não era apenas um dever cívico para a família Organa, era um campo minado de traumas pessoais. Quando Bail discute táticas contra o Império ou os perigos da Aliança com Leia, ele o faz através das lentes de um homem que já viu as consequências de seus ideais baterem violentamente à porta do quarto de sua filha.
Nós sabemos como a história de Bail termina. Sabemos o destino que aguarda Alderaan em Uma Nova Esperança, o que torna essa culpa paterna ainda mais trágica, pois ele nunca teve o tempo que achou que teria para consertar a galáxia para ela. Com Ewan McGregor ainda fazendo campanha ativa nos corredores da Lucasfilm por uma segunda temporada de Obi-Wan Kenobi, fica a esperança de que as telas possam voltar a explorar essas feridas invisíveis que os livros começaram a curar.
No fim das contas, enquanto o café esfria na xícara, percebemos que Star Wars pode até tentar voar para os confins mais distantes do universo em naves novinhas em folha. Mas as melhores histórias, aquelas que realmente nos prendem à cadeira, ainda são sobre pais, filhos, velhos amigos e o peso das escolhas que fazemos.



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