O modelo social europeu, sendo uma das suas maiores conquistas é também um dos fatores que ajudam a explicar a sua menor agilidade
No meu último artigo, defendi que o problema da tecnologia europeia não é tecnológico, mas político. Ficou, no entanto, uma dimensão por explorar, o papel da componente social e sobretudo do modelo social europeu.
Não se trata de uma crítica fácil nem de um exercício ideológico. O modelo social europeu, herdeiro do Estado Social do pós-guerra, é, em muitos aspetos, um sucesso inequívoco. Mas é precisamente por isso que merece ser analisado com rigor. É que os seus méritos são claros, mas os seus trade-offs também.
Comecemos pelo essencial. A Europa construiu um sistema que reduz desigualdades de forma consistente e relevante, garantindo acesso generalizado à saúde, educação e a uma rede de proteção social abrangente que vai da doença à velhice, do desemprego à parentalidade. Acresce uma proteção social robusta dos direitos dos trabalhadores, consumidores e ambiente, frequentemente mais exigente do que em qualquer outra geografia comparável. O resultado é conhecido: níveis elevados de qualidade de vida, estabilidade e coesão social (embora em acelerada erosão em virtude do crescimento de movimentos populistas e de tentativas de desestabilização de países como a China, os EUA e a Rússia).
Num mundo ideal seria desejável, do ponto de vista humano e civilizacional, que todas as economias avançadas oferecessem padrões semelhantes de proteção social, direitos laborais e exigência ambiental. Mas esse mundo não existe. E essa é uma parte central do problema.
Na prática, a Europa compete num contexto global onde não há um level playing field. Outras grandes economias operam com níveis significativamente mais baixos de proteção social, menores exigências regulatórias e estruturas fiscais mais leves. Isso cria uma desvantagem direta para a Europa, que internaliza custos sociais, ambientais e laborais, entre outros, que outras geografias não assumem com a mesma intensidade.
Este ponto é frequentemente ignorado no debate público: o modelo social europeu não existe no vazio, existe sim num sistema competitivo global.
E esse modelo tem custos, que são elevados e persistentes.
A despesa social na Europa representa uma fatia muito significativa do PIB, superior à observada nos Estados Unidos (EUA), na China e noutros concorrentes. Na União Europeia (UE) a despesa social ultrapassa frequentemente 25% do PIB, atingindo mais de 30% nalguns países, enquanto nos EUA se situa próxima da média OCDE (cerca de 20%) e na China permanece significativamente mais baixa.
Essa realidade implica uma carga fiscal mais elevada e uma alocação de recursos substancial à redistribuição e à protecção. Enquanto a carga fiscal na UE ronda os 40% do PIB, nos EUA situa-se tipicamente entre os 25% a 28% e na China em cerca de 20%. É novamente uma escolha consciente mas com consequências económicas diretas.
A primeira consequência é evidente: menor margem para investimento em áreas críticas como ciência, inovação (defesa) e menor financiamento de empresas tecnológicas. A segunda é mais estrutural, o impacto nos incentivos.
Num contexto em que o retorno do sucesso é fortemente tributado e em que a proteção social reduz o custo do insucesso, o equilíbrio entre risco e recompensa altera-se. Não elimina o empreendedorismo, mas condiciona a sua escala. E, sobretudo, influencia a ambição.
Este ponto é central: o modelo social não molda apenas resultados económicos, molda também e sobretudo comportamentos e expetativas.
Ao longo de décadas, a Europa consolidou sociedades que valorizam, legitimamente, a igualdade, segurança e estabilidade. Mas essa valorização tem um contraponto, uma menor tolerância ao risco, ao fracasso e à desigualdade (temporária) que frequentemente acompanha processos de inovação. Em ecossistemas como o norte-americano, essa tolerância, com todos os seus excessos, é parte integrante da dinâmica económica.
A diferença não é apenas cultural, é também institucional. Por exemplo, a Europa continua a ter mercados de capitais menos profundos, menos integrados e menos orientados para o risco. O financiamento de startups e empresas inovadoras é mais limitado, fragmentado e lento. Mecanismos de financiamento e incentivos fiscais ao investimento em empresas inovadoras têm menor expressão relativa do que nos EUA.
O resultado é recorrente, as empresas europeias tentam inovar, crescem até certo ponto e depois ou estagnam, ou são adquiridas ou deslocam-se para ecossistemas mais favoráveis. A dificuldade não está assim só no arranque, está sobretudo em conseguir ganhar escala.
Num mundo em que o capital e o talento são altamente móveis, isto tem consequências previsíveis. Empreendedores ambiciosos e capital procuram geografias onde o retorno ajustado ao risco é maior, o financiamento mais acessível e a densidade do ecossistema mais elevada. Quando essas condições não estão reunidas, a Europa perde, não necessariamente (ou só) em quantidade de talento mas na capacidade de o transformar em escala económica.
É aqui que emerge um paradoxo crítico.
A Europa ainda consegue sustentar o seu modelo social, em larga medida, graças à riqueza e conhecimento acumulados ao longo de décadas ou mesmo séculos, resultado de um período histórico em que foi mais competitiva, inovadora e dominante economicamente. Mas essa base não é garantida.
Se a Europa continuar a perder competitividade relativa há uma consequência inevitável: chegará um momento em que não terá crescimento económico, base fiscal e poder global necessários para sustentar o nível atual de proteção social. O modelo, que hoje parece estrutural, pode tornar-se financeiramente insustentável.
Esse risco não é teórico, em alguns países é já bastante visível. O caso de França é particularmente claro. É uma das economias mais desenvolvidas da Europa, com um modelo social muito enraizado e uma população que o defende acerrimamente. Reformas que visam ajustar o modelo, como sejam alterações à idade da reforma, procurando aumentá-la, enfrentam frequentemente resistência social intensa e prolongada.



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