Lula afasta ameaça autoritária, mas não dissipa risco econômico e institucional

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31.out.2026 às 22h00

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Mesmo entre os brasileiros que rejeitam Luiz Inácio Lula da Silva e as ideias econômicas do PT, a vitória eleitoral do presidente da República no domingo passado (25) produziu uma compreensível sensação de alívio.

Até aqueles que acreditam que o país necessita de mudanças profundas encontraram motivos para se conformar com o resultado das urnas. A fuga de Flávio Bolsonaro (PL) para os EUA, seguida da divulgação de uma carta golpista e delirante, confirmou que o alívio era justificado.

Ao preferir Lula, o eleitorado nacional colocou a preservação da democracia acima dos evidentes indícios de deterioração da economia. Quase quatro décadas depois da redemocratização, o Brasil demonstrou ter memória. Ditadura, nunca mais.

Seria um erro, entretanto, confundir esse alívio com uma convergência de opiniões capaz de dar unidade a um país dividido. A derrota do golpismo não elimina as divergências profundas hoje existentes entre os brasileiros —nem os desafios que o mandatário reeleito terá pela frente.

Problemas graves não faltam. O Supremo Tribunal Federal tornou-se uma corte excessivamente politizada, cujos ministros acumulam poderes praticamente sem limites, capazes até de invadir prerrogativas do presidente da República e do Congresso Nacional. Desvios éticos e relações nada transparentes com interesses privados degradaram a credibilidade do tribunal.

Não há democracia saudável quando aqueles encarregados de zelar pela Constituição sentem-se dispensados de prestar contas e de observar os limites impostos aos demais Poderes. A condição de última instância judicial não pode significar poder absoluto.

No comando do Executivo, Lula, que acaba de completar 81 anos, permanece preso a concepções econômicas anacrônicas, que deveriam ter sido superadas ainda nos anos 1980.

O apego do petismo ao gigantismo estatal e sua resistência à contenção dos gastos públicos ameaçam agravar uma situação fiscal que já beira o insustentável. A reeleição não muda essa realidade nem torna menos necessárias medidas duras e impopulares.

A resposta dos mercados à permanência de Lula, na semana passada, veio na forma de uma queda de quase 18% da Bolsa de Valores, alta de 9% do dólar e avanço de quase três pontos percentuais nos juros futuros.

Não se trata apenas de perdas para investidores. A desvalorização cambial pressiona a inflação, enquanto juros mais altos encarecem o crédito, inibem investimentos e comprometem o crescimento do PIB. Os maiores prejudicados serão, como sempre, os brasileiros mais pobres.

Lula terá de escolher entre insistir nas convicções que levaram a economia ao impasse atual ou reconhecer a necessidade de mudança de rumo. O país afastou uma ameaça à democracia, mas não resolveu seus problemas institucionais e econômicos.

editoriais@grupofolha.com.br

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