Casos de agressões e pesquisas mostram que o país precisa enfrentar a fragilidade disciplinar no ensino
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28.jul.2026 às 22h00
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A partir da segunda metade do século 20, consolidou-se globalmente uma mudança no paradigma disciplinar da educação, com a passagem de um modelo hierárquico rígido e punitivo para outro centrado nos direitos da criança, na participação do estudante e em formas não violentas de disciplina.
Tal avanço civilizatório não implica falta de regras claras de conduta e de respeito a figuras de autoridade. O Brasil, porém, enfrenta dificuldades nessa seara.
Relatos de agressões contra professores compõem um cenário de problema disciplinar revelado por pesquisas. O caso recente da professora Michele Ramos, que registrou boletim de ocorrência após alunos colocarem uma lâmina de vidro em seu copo de água durante a aula numa escola municipal de São José dos Campos (SP), é um deles.
Segundo levantamento do Centro do Professorado Paulista de 2025, 65% dos docentes já haviam sofrido alguma agressão no ambiente escolar e 74% não se sentiam seguros em sala de aula. A violência verbal representa 71% das agressões, seguida pela psicológica e moral (58%), institucional (27%) e física (19%).
Pesquisa da OCDE de 2024 mostra que 47% dos professores brasileiros disseram que sofrer intimidação ou abuso verbal por alunos era uma fonte relevante de estresse, ante a média de 18% dos cerca de 50 países analisados.
O Brasil tem as maiores proporções de docentes que dizem perder muito tempo esperando os alunos se aquietarem (43%) ou por causa de interrupções (44%), enquanto as médias da OCDE são, respectivamente, de 15% e 18%.
Casos graves de violência devem ser tratados por meio de investigação policial. Mas a situação mostra que são necessárias ações de prevenção e responsabilização e para que o ambiente em sala de aula se torne mais tranquilo; os pais também precisam atuar no campo disciplinar.
Em relatório sobre o tema, a Unicef faz uma série de recomendações, como a criação de protocolos específicos para agressões, de mecanismos nacionais e estaduais acessíveis de notificação, encaminhamento e monitoramento dos casos e de programas com atividades de cooperação, gestão de conflitos, autocuidado e reconhecimento das emoções.
Especialistas também apontam a necessidade de maior integração entre a escola e as famílias, além da valorização dos professores e do ensino, já que a política disciplinar perde eficácia com salas superlotadas, grande rotatividade docente, infraestrutura precária e ausência de atendimento especializado.
editoriais@grupofolha.com.br
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