Especialistas apontam que fatores como o tipo de vegetação, os impactos de fenômenos climáticos ...
Especialistas apontam que fatores como o tipo de vegetação, os impactos de fenômenos climáticos e até questões habitacionais estão entre os pontos que distinguem os dois cenários.Os incêndios florestais que devastaram regiões da Europa, já considerados os maiores da história recente em algumas localidades, chamam a atenção em todo o mundo. O fogo avançou com rapidez e atingiu inúmeras residências, o que fez com que centenas de milhares de pessoas tivessem que deixar suas casas.
No Brasil, o período mais complexo para a temporada de fogo começou neste mês e vai até outubro. Além disso, há um El Niño que, segundo cientistas, deve ter força elevada nos próximos meses.
Em meio a esses cenários, surge uma pergunta: o que difere os incêndios registrados na Europa dos que se tornaram frequentes no Brasil? A reportagem ouviu especialistas que explicaram semelhanças e diferenças desses fenômenos.
No Brasil ou na Europa, as origens desses incêndios são semelhantes. Eles surgem de uma combinação entre falta de chuva, ar seco e ondas de calor.
"Isso forma um domo de calor, ou bolha de ar quente, que impede que as frentes frias e as chuvas entrem. Com isso, se forma um ambiente seco e com vento de alta velocidade. Essa combinação é o que propaga os incêndios nos dois casos", explica José Antonio Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Essa combinação é impactada pelos eventos climáticos, como a chegada do El Niño, que deve ganhar força nos próximos meses e pode atingir a categoria forte ou muito forte. No Brasil, a perspectiva é de que o fenômeno, que altera padrões de chuva e temperaturas, pode piorar o cenário de incêndios.
Já o fogo na Europa, segundo especialistas, não teve impacto desse fenômeno.
"O El Niño influencia o clima em todo o planeta. Mas esse evento começou agora, então os atuais incêndios da Europa não estão relacionados a ele. Eles estão associados, principalmente, ao aquecimento global", explica o meteorologista Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Os fenômenos climáticos impulsionam a propagação do fogo, que muitas vezes são iniciados na produção rural. Neste ano, uma das causas apontadas para os incêndios florestais na França e na Espanha foi o contato de máquinas com a vegetação seca na monocultura.
No caso da Europa, especialistas apontam que grande parte desses incêndios não ocorre de maneira intencional. "Por lá, há muito menos pessoas colocando fogo ou iniciando incêndios, como aqui no Brasil", diz a geógrafa Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).
No Brasil, o fogo começa, na imensa maioria das vezes, por ação humana, de forma voluntária ou involuntária. Um problema do país, diz Marengo, é o uso indevido do fogo por parte de produtores rurais para preparar o terreno. "Com uma atmosfera muito seca e matéria seca acumulada, esse fogo sai do controle e se espalha."
As grandes proporções desses incêndios pelo mundo têm sido atribuídas às mudanças climáticas, que favorecem condições meteorológicas extremas. "As situações que ajudam esses incêndios podem ser associadas ao aumento da temperatura no planeta", avalia Marengo.
Vegetações diferentes
Apesar das origens semelhantes, há diferenças nos incêndios registrados na Europa e no Brasil.
Uma delas é a vegetação local. Na Europa, particularmente na região que abrange países como Espanha, França e Itália, as áreas em que ocorreram os incêndios costumam ser dependentes do fogo. "É uma região de alta inflamabilidade, em que o fogo tem um papel na biodiversidade e nas características ecológicas dela", diz Ane.
Na prática, isso significa que algumas espécies dessas regiões usam o fogo para brotar ou se reproduzir. É uma situação semelhante ao Cerrado brasileiro, que também enfrenta problemas com fortes incêndios.
Amazônia e Pantanal, que são áreas úmidas e que não estão associadas ao fogo, também tiveram incêndios de grandes proporções no período recente. "Nos casos delas, o fogo não é um ciclo natural, por isso são biomas que preocupam muito", pontua Ane.
"Mesmo sendo um país continental, pouco mais da metade da nossa vegetação é sensível ao fogo, o que significa que ele deveria ser um evento raro. Mas quando enfrentamos uma seca severa, tudo fica muito inflamável", acrescenta.
Depois de sofrerem com fogo intenso, as florestas tropicais enfrentam dificuldades para se recuperar. Esses biomas são ainda mais prejudicados quando os incêndios se tornam frequentes. Isso impede que consigam se regenerar adequadamente.
Até mesmo nas regiões em que a vegetação é adaptável ao fogo, como nas florestas afetadas na Europa, os incêndios recentes se tornaram algo que vai além do que é considerado natural ou ecologicamente saudável. "Isso se tornou um problema muito grave", frisa Ane.




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