Nova recomendação internacional orienta médicos a evitar exames e tratamentos desnecessários e avaliar cada criança individualmente

Priorizar nos meus resultados Google Se as mamas de uma menina começam a se desenvolver aos 7 anos, isso significa necessariamente que a puberdade chegou antes da hora e que ela deve ser submetida a uma bateria de exames? E se um menino apresentar aumento do volume dos testículos antes dos 8 anos, a investigação deve ser imediata?

A resposta, segundo uma nova diretriz internacional, é: nem sempre. Coordenado pela endocrinologista Ana Claudia Latronico, professora titular de Endocrinologia e Metabologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em parceria com Stephanie A. Roberts, da Harvard Medical School, o documento propõe uma mudança na abordagem da chamada puberdade precoce central (PPC).

Em vez de basear a decisão apenas na idade em que surgem os primeiros sinais, a recomendação é avaliar como a puberdade está evoluindo, a velocidade das mudanças e as características individuais da criança.

A diretriz foi elaborada ao longo de dois anos por endocrinologistas pediátricos de diferentes países e apresentada em junho, durante o Congresso Americano de Endocrinologia. Em 3 de agosto, ganhou destaque internacional ao ser tema de um editorial da The Lancet Diabetes & Endocrinology, uma das principais revistas médicas do mundo.

No texto, intitulado “Less can be more: the 2026 Endocrine Society Guideline for precision care in central precocious puberty (“Menos pode ser mais: a diretriz de 2026 da Sociedade de Endocrinologia para o cuidado de precisão na puberdade precoce”, em tradução literal), a endocrinologista pediátrica Sasha R. Howard, da Queen Mary University of London, na Inglaterra, afirma que o documento representa uma mudança de paradigma ao priorizar uma medicina de precisão, baseada na avaliação individual.

“Um dos principais pontos da nova diretriz é não acelerar a investigação de crianças com desenvolvimento de puberdade numa faixa etária limítrofe”, explica Latronico.

Segundo a médica, é comum que os médicos tenham  o ímpeto de fazer uma investigação ampla com radiografias, ressonância magnética do sistema nervoso central, exames laboratoriais e exames de sangue logo nos primeiros sinais de uma possível puberdade precoce. “Mas nem sempre isso é necessário”.

A diretriz atualiza o consenso internacional de 2009 e é a primeira recomendação abrangente sobre puberdade precoce central.

A puberdade precoce é tradicionalmente definida como o início do desenvolvimento puberal antes dos 8 anos nas meninas e dos 9 anos nos meninos.

Mas estar abaixo desses limites não significa, por si só, que a criança tenha uma doença ou precise de tratamento.

Especialmente nas meninas, podem ocorrer variantes do desenvolvimento normal, como a chamada telarca prematura, caracterizada pelo crescimento das mamas antes da progressão completa da puberdade. Também existem casos em que as mudanças começam mais cedo, mas avançam lentamente e não provocam consequências que justifiquem uma intervenção.

Por isso, a diretriz enfatiza a importância de observar a evolução da criança: crescimento, velocidade de progressão das mamas ou dos genitais, maturação óssea e outros sinais de desenvolvimento.

“O pediatra tem essa característica, ele examina, tem que examinar a criança e ver como é que ela está crescendo, como o desenvolvimento da mama aconteceu, se ele está sendo rápido, se está sendo lento”, exemplifica Latronico.

A recomendação de observar com mais atenção crianças próximas do limite da idade normal ocorre em um contexto mais amplo: a puberdade vem acontecendo cada vez mais cedo nas últimas décadas.

Segundo Latronico, há cerca de um século as meninas menstruavam, em média, aos 17 ou 18 anos. Atualmente, a idade média da primeira menstruação é de aproximadamente 12 anos nos Estados Unidos e 11 anos e meio no Brasil.

“Já se sabe, há muito tempo, que a puberdade vem aparecendo mais cedo nos últimos 100 anos”, afirma a médica, que estuda o tema há mais de duas décadas. “Isso tem a ver com as questões nutricionais, tem a ver com a industrialização, com as questões urbanas, com o desenvolvimento das cidades.”

Nas últimas décadas, também aumentaram os diagnósticos de puberdade precoce central, especialmente entre meninas. O fenômeno foi observado em diferentes países e ganhou ainda mais atenção durante a pandemia de covid-19.

As causas desse avanço não estão completamente esclarecidas. Entre os fatores estudados estão mudanças nutricionais, excesso de peso, menor atividade física e estresse.

A obesidade também parece ter papel importante. Segundo Latronico, cerca de 40% das crianças atendidas por alterações relacionadas à puberdade precoce apresentam obesidade. Isso porque o excesso de gordura pode interferir no desenvolvimento hormonal.

Além disso, nas meninas, o aumento das mamas pode, em algumas situações, estar relacionado à própria presença de tecido mamário associada ao excesso de gordura, e não necessariamente à ativação do eixo hormonal da puberdade.