Nos últimos dez anos, a disseminação de redes sociais como YouTube, Instagram e Rate Your Music ...
Nos últimos dez anos, a disseminação de redes sociais como YouTube, Instagram e Rate Your Music abriu espaço para novas gerações descobrirem artistas antes relegados ao underground. Isso significou uma segunda vida para várias bandas que não tinham muita exposição até ali, com um gênero em particular crescendo bastante em fama: o math rock.
🎧 Do universo de fã ao universo da música: tudo que você ama em um só lugar. Siga @centralsonora.
A ramificação se tornou queridinha online da geração Z. Jovens artistas famosos adotaram aspectos do som e há até mesmo uma indústria de canais de YouTube inteiramente dedicados a destrinchar o estilo e explicá-lo às massas.
Entretanto, o que torna o rock matemático? A Rolling Stone Brasil preparou um guia resumido para ajudar a entender o math rock.
As pessoas responsáveis por criar o punk e, principalmente, o hardcore, não escutavam só esse tipo de música. Especialmente porque, antes delas, não havia esse tipo de música. É claro. Então, precisavam se contentar com outras coisas.
No Reino Unido, ouvia-se muito reggae graças à população imigrante caribenha trazendo consigo sua cultura. Enquanto isso, nos Estados Unidos, se escutava folk, rock progressivo e jazz.
O próprio Black Flag, creditado como pioneiro do hardcore, usou tempos swingados — uma marca registrada do jazz — nas músicas do seu álbum de estreia, Damaged (1981). Logo, a banda começou a destruir a estética que haviam construído, com o EP instrumental The Process of Weeding Out (1985) explicitando essa influência em material mais avant-garde.
Embora o grupo seja definido pelo seu som mais agressivo, essas guinadas estilísticas vieram a empoderar uma geração de músicos insatisfeitos com uma postura dogmática do punk. Ver um nome canônico "dar uma banana" para as regras ofereceu a outros artistas o sinal verde para experimentar.
Enquanto isso, um dos principais nomes do rock progressivo, King Crimson, retomou as atividades no começo dos anos 1980 com uma sonoridade completamente diferente. Influenciado por gamelan, um estilo de música da Indonésia focado em polirritmia — vários ritmos diferentes que ocorrem ao mesmo tempo no arranjo, tal qual ponto e contraponto melódico —, a banda gravou três álbuns: Discipline (1981), Beat (1982) e Three of a Perfect Pair (1983). Estes serviram como um mapa para as gerações seguintes de músicos.
Um dos aspectos principais a se apontar quando falamos de math rock é: algumas das bandas citadas como precursoras do gênero nos anos 1990 eram, na época, vistas como pertencentes a outros subgêneros. Muitas vezes, pedras fundamentais destes.
Um fator comum a artistas vistos como pioneiros do math rock é uma associação ao selo independente Touch and Go Records e, mais importante, ao músico e engenheiro de gravação Steve Albini. Além disso, havia uma conexão forte à cena punk de Louisville, no estado do Kentucky.
Um nome que se enquadra em ambos os aspectos é o Slint. A banda experimental surgiu no final dos anos 1980, lançou dois álbuns hoje considerados clássicos - Tweez (1989) e Spiderland (1991) - e terminou antes de qualquer reconhecimento. Os integrantes desenvolveram um som complexo, com mudanças de tempo, texturas abrasivas e dissonância completamente alienígena a qualquer tradição rock até ali.
https://www.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_mmsU9z2fL9ke3VeHobMfQAuV3FdsDsviI
Entretanto, isso fez o Slint na época ser apontado como um dos artistas fundamentais para o estabelecimento do post-rock. Isso porque o nome "post-rock" foi popularizado na imprensa antes, graças a uma resenha do álbum Hex (1994), do grupo britânico Bark Psychosis.
O termo math rock, em si, surgiu como brincadeira. Em entrevista ao Pitchfork, Matt Sweeney, guitarrista e vocalista do Chavez, afirmou que um amigo seu criou o nome no início da década para tirar sarro de uma de suas bandas, que usava tempos incomuns na música:
"Um amigo nosso inventou [math rock] como um termo pejorativo para uma banda que eu e James [Lo, baterista do Chavez] integrávamos, chamada Wider. A piada era que ele ia no show e não reagia às canções, aí tirava a calculadora para ver o quão boa a música era. Ele chamava de math rock como desrespeito, como deveria ser."
Muitos artistas dos anos 1990 vistos hoje como math rock também são categorizados como noise rock, post-rock, post-hardcore ou emo. Todos esses estilos têm características em comum, principalmente o uso de afinações alternativas e tempos complexos. Entretanto, estes eram subgêneros bem estabelecidos aos olhos da imprensa e público naquela época, enquanto math rock não era.
Isso começou a mudar nos anos 2010, quando uma geração de artistas fazia uso desses elementos musicais sob a bandeira explícita de math rock, como Delta Sleep, Covet e Tricot, esta última japonesa. Vale, aliás, apontar o papel do Japão na disseminação do estilo, graças a uma cena rica no país.
https://www.youtube.com/watch?v=FTxSXUzc96A&list=RDFTxSXUzc96A&start_radio=1&pp=ygUFQ292ZXSgBwE%3D
Banda de Pittsburgh que incorporava ao seu som os polirritmos explorados pelo King Crimson no começo dos anos 1980. Outro aspecto era a capacidade de reproduzir ao vivo esses arranjos graças ao avanço da tecnologia. O guitarrista Ian Williams usava o pedal Akai Headrush, um dos primeiros loopers disponíveis comercialmente. Isso lhe possibilitava construir uma orquestra de guitarras sozinho.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário