Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, falou no Parlamento Europeu e fez promessas da área do ambiente à da defesa passando pelas migrações. Mas sobrará alguma coisa do seu discurso?

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Muito bom dia. No Contracorrente de hoje: o estado da União Europeia. Ursula von der Leyen dirigiu-se aos europeus no tradicional discurso da União no Parlamento Europeu. A assistir estava o primeiro-ministro do Canadá, país que a presidente da Comissão Europeia convidou para membro associado do clube europeu. Voltou a falar-se de defesa, com o anúncio da criação de um mecanismo para responder à guerra híbrida, e voltou a falar-se da guerra na Ucrânia, da burocracia europeia e também do déficit comercial com a China. José Manuel, bom dia.

O que destacas do discurso de Ursula von der Leyen?

Para ser franco, acho que é um discurso que não ficará na história, porque acabou por ser um discurso muito otimista. Ela traçou um retrato da Europa como se tudo estivesse a correr bem, ela tivesse feito tudo o que deveria fazer e depois anunciou um conjunto de novas políticas que, em muitos aspectos, eu creio que o melhor era ter ficado no tinteiro. Não todas, mas boa parte delas.

Nem ao papel chegam .

Não estás a ver aquela gente toda nessas circunstâncias. Portanto, vêm crianças. Por quê? Porque às crianças não se pode fazer nada. São buracos que existem na lei. Em vez de dizer assim: "Temos que mudar estas normas básicas, que em nome de uns direitos permitem o assalto." Não há direitos universais no sentido de permitirem tudo. Mas na Europa às vezes parece que sim, que se permite tudo. Os direitos vêm com deveres e os deveres, por regra, implicam que as pessoas têm direitos, mas têm que cumprir normas. Eu, para garantir que tenho o direito à vida, tenho que ter normas que dizem que eu não te posso matar. Eu não tenho o direito à autodeterminação, mas não chego ao ponto de eu te poder matar. Portanto, todos estes escrúpulos parece que não existem para algumas pessoas. Eu fico muito preocupado com este discurso, apesar de alguns pontos positivos, porque me parece que a Europa está um pouco numa bolha. Qual foi o primeiro momento em que houve mais palmas? Eu diria: estou de acordo, mas estou preocupado. O primeiro momento em que houve mais palmas foi quando a presidenta do colégio de comissários disse que a Europa ia criar mecanismos, mais uma vez centralizados, para garantir que os países, quando transcrevem normas europeias para o direito nacional, não acrescentam complicação à complicação. A Europa está há dois anos para descomplicar no centro. Ter um relatório Draghi foi muito bonito, mas há dois anos que o relatório Draghi foi feito. E o que disse, por exemplo, durante esta intervenção, a líder do grupo socialista? É que descomplicar não pode ser desregulamentar. Ora, é exatamente o que tem que ser, é desregulamentar. Tem que ser mesmo isso, porque se regulamentamos tudo, basicamente a complicação existe porque está tudo regulamentado. Está regulamentado o tamanho dos palitos, está tudo regulamentado. As tampinhas das coisas, isto, aquilo e aquiloutro. Ora, de repente, por exemplo, aquele sistema do voto, parece que está a funcionar mal em quase todos os países, e já há gente a dizer que é preciso voltar para trás. Mas entretanto é uma coisa que foi de cima para baixo, por e adiante, sem perceber. Aquilo que é fundacional na União Europeia, que é o princípio da subsidiariedade, isto é, não fazer a nível central aquilo que pode ser melhor feito a nível local, está a ser invertido, porque a lógica do centro é: um, ter poder; dois, ocupar o tempo. E quando tens muitos funcionários, digamos, os funcionários públicos mais bem pagos da Europa, os melhores crânios, eles têm que encontrar utilidade às suas próprias vidas. E essa utilidade é achar como fazer o bem regulamentando. E é por isso que dois anos depois do relatório Draghi não acontece nada. Tudo aquilo que foi sugerido não aconteceu. E eu não ouvi o discurso todo, porque eu fiquei a escutar aqui a rádio, porque foi o tempo do vencedor e do lançamento do programa. Não sei se ela falou do mercado interno, mas tenho ideia que não, pelo menos não estou a ver nos títulos, não estou a encontrar isso. E o mercado interno é boa parte do nó do problema, vem do tempo de quem? Vem do tempo de Jacques Delors. Quando nós estávamos a entrar na União Europeia, começou-se a falar desse tema. E agora sabemos, porque o próprio relatório Draghi diz, que os custos de não concretização. De que estamos a falar? Estamos a falar de não existir mercado interno, porque quase não há empresas europeias, há enormes barreiras à concentração, há enormes barreiras àquilo que eu tenho que pôr nas etiquetas e que complicam a vida de um lado e do outro. Portanto, pequenas coisinhas que estão por baixo do radar.

A Ursula von der Leyen deu um número impressionante, que é o déficit comercial da Europa em relação à China é de 1 milhão de euros por dia.

Por dia, mas isso é de mil. Eu acho que vai continuar a aumentar. O ano passado ela foi mais assertiva com a China. Intervir, nomeadamente na história dos carros elétricos. Um ano depois, como é que estamos? Estamos com mais carros elétricos na Europa e menos carros europeus na China. É assim que estamos. E vai continuar assim, porque não se vê como é que vai mudar. O que nós sabemos é que as fábricas europeias estão a despedir pessoas. A Volkswagen vai despedir 100 mil pessoas. Depois há questões políticas, tem a ver com a forma como há relação de uns Estados com outros. E é o tema da defesa que eu não vi, sinceramente, que houvesse, além da retórica, nada de muito concreto.

Desculpa, deixa-me só autocorrigir, mil milhões de euros por dia é o défice comercial.

Eu disse bilhão, bilhão é mil milhões.

Mil milhões. Não um bilhão.

Mil milhões. Sim. Eu tinha o número na cabeça, por isso é que não te corrigi logo, porque bilhão às vezes nós brilhamos.

Mil milhões. Portanto, eu não fiquei muito entusiasmado com isto, mas eu tenho algum ceticismo em relação à forma como a Europa, até pelo aumento de países, vai acrescentando funcionários, vai acrescentando comissários, vai tentando ter mais funções. E isso não ajuda, já que a semana passada, foi no Vencedor, não foi neste programa, falei daquilo que me parece um disparate, que é estas normas de habitação. Temos agora a definir índices de alojamento local, que depois alguém fez as contas para Portugal, já tínhamos quase todo o país abrangido por aquelas normas. Esse é um tema para ser resolvido localmente, ainda há um tempo. Por exemplo, podemos discutir se bem ou mal, houve propostas sensatas, ou pelo menos que apontam pra alguma sensatez, na área da habitação em Portugal. São propostas tipicamente locais, avançadas por autarcas ou ex-autarcas. É tudo o contrário daquilo que possa vir deste tipo de regulamentação. E uma das coisas que existem é que têm medo dos processos judiciais e, portanto, é preciso ter uma espécie de chapéu legislativo europeu pra não haver processos judiciais. Não creio que seja nada a boa razão para ir acrescentando complicações às complicações, porque quanto mais complicações temos, mais difícil é investir, mais difícil é exportar, mais difícil é ter novas funções. Eu achei graça a uma coisa que disse o líder do PPE, de regressar à velha ideia fundadora de ter um acordo na área da defesa mais sólido, que é um acordo proposto em 52, ainda pelos pais fundadores, o Adenauer, o Scarpelli, o Jean Monnet, que era uma coisa que era para avançar em 52 e que depois fracassou. Era para avançar ainda antes de haver a União Europeia e a Comunidade do Aço, numa altura em que já havia a NATO, portanto, não era pra substituir a NATO, mas já na altura se percebeu que era algo-

Era a Comunidade Europeia de Defesa

...era a Comunidade Europeia de Defesa, de vez em quando vem ao de cima. Quando foram as guerras nos Balcãs, eu lembro, era na altura ministro da defesa português, António Vitorino, que depois viria a ser comissário, voltou a falar-se disso, voltou a falar-se de tropas próprias. E agora o máximo que ficamos é garantir que os investimentos são coordenados e que os aviões no ar conseguem aparecer uns aos outros. Foi uma das coisas que ele falou no discurso, que eu até fiquei assim um bocadinho panzado, como sendo algo assim tão importante.

Exatamente, é microgestão, como diz a Helena Garrido, mas eu se calhar estou a ser demasiado crítico. É capaz de ser melhor ouvir outras vozes menos críticas. Confesso que houve uma parte do discurso que eu não consegui seguir, foi quando ela mudou pra alemão, e eu como vinha no carro a ouvir, não consegui ter tradutor pra aquele alemão, portanto não sei o que é que ela disse, e por cima estava a falar muitas vezes da Ucrânia.

Seguramente que o Paulo Santos, especialista em assuntos europeus, acompanhou, teceu ou apaviu este discurso da União da Ursula von der Leyen. Bom dia, Paulo.

O que destacaria desta intervenção da presidenta da Comissão Europeia?

Este é o sexto discurso do Estado da União. E sendo o sexto discurso do Estado da União, já temos alguma experiência relativamente às análises sobre o discurso sobre o Estado da União. E normalmente eles são todos recebidos com algum ceticismo, com algumas dúvidas, e dizendo que não foi longe demais, foi longe demais, não falou disto, não falou daquilo, falou disto e não devia. Enfim, este ano ela tinha, de facto, dar resposta a várias coisas. Eu resumiria, como parece-me ser, em particular, ela própria, ou seja, a presidenta da Comissão Europeia, não apenas o cargo, o facto de que importância é que tem, que relevância é que tem, o que é que faz, afinal, que poder é que tem a presidenta da Comissão Europeia. Portanto, há aqui uma dimensão política clara. A segunda, depois, uma resposta a este ceticismo muito generalizado, esta ideia de que a União está a andar pra trás, a Europa, se quisermos, a União Europeia, em termos económicos, em termos de desenvolvimento, na competitividade, nesta espécie de fuga pra frente em que estamos todos, muito também levados pelas tecnologias, de que a Europa não avança e o que é que se pode fazer. E em terceiro lugar, as múltiplas crises e, portanto, era um discurso difícil. Não fui comparar, mas julgo também que terá sido o discurso mais longo do Estado da União.

Costuma ser uma hora e este demorou quase uma hora e meia.