Um corvo que resolve um quebra-cabeça de oito etapas se equipara a uma criança de 5 anos no discurso dos especialistas, que hoje definem inteligência pelo escore, não mais pelo que dizem os filósofos. Por esse critério, há dois anos a IA era inferior a nós; há um, superdotada; hoje está no topo da humanidade. Fim . Leia mais (08/23/2026 - 07h00)

Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind

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Um corvo que resolve um quebra-cabeça de oito etapas se equipara a uma criança de 5 anos no discurso dos especialistas, que hoje definem inteligência pelo escore, não mais pelo que dizem os filósofos. Por esse critério, há dois anos a IA era inferior a nós; há um, superdotada; hoje está no topo da humanidade. Fim.

A questão é que o teste de QI possui cenário fixo, como o dos benchmarks que a máquina gabarita toda semana, enquanto o mistério real é o que a faz resolver cada vez melhor o que não tem gabarito, do dilema afetivo gravado num áudio cheio de erros à conjectura matemática que resistiu a um século de tentativas.

Isso não ocorre pela via da lógica e da regularidade na aplicação de regras, que em humanos estão associadas aos QIs mais elevados. Nessas coisas, a IA perde para calculadoras científicas e programas de xadrez da década de 1990.

A minha tese é que dois fatores explicam boa parte do efeito. O primeiro é a identificação e a conservação de objetivos.

A cada versão, a IA segue melhor a linha invisível que liga as partes de um diálogo e dali vai extraindo o que mais importa, que passa a guiar a conversa. Isso ocorre porque os modelos atuais criam verdadeiras geometrias das conversas, que usam para enxergar o objetivo latente mesmo quando o usuário não o vê, tal como o psicanalista que diz enxergar na linguagem o inconsciente.

A coisa mais quente em IA hoje são os agentes, que realizam tarefas sozinhos. Seu funcionamento é baseado na preservação de um objetivo central, enquanto tarefas necessárias para chegar lá vão sendo identificadas e cumpridas.

O segundo fator, mais sofisticado, é a capacidade de comprimir as coisas de maneira extrema, para fazer mais com menos. Veja, se eu pego um livro de matemática e o resumo em cinco páginas, sobram alguns princípios e uns exemplos. Mas se pego todos os livros e artigos já escritos e faço o mesmo, termino com os próprios fundamentos da matemática.

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Comprimir até o limite significa extrair as leis que governam um campo ou situação. Comprimir dois campos juntos é descobrir o que um tem a dizer ao outro, enquanto comprimir todos os campos leva aos princípios que regem o funcionamento do mundo. A IA não está muito perto disso, mas há trilhões de dólares apontados nessa direção, chamada inteligência artificial geral.

Aplicada às respostas do algoritmo, a compressão faz cada palavra pesar mais e dá aquela sensação de que ele entendeu o ponto em jogo no áudio pouco elaborado que mandamos.